O Riso da Minha Tia

O riso da minha tia Isabel era uma das características que eu mais admirava. Apesar de a vida lhe ter dado muito poucos motivos para sorrir, quando a minha tia sorria, quando se ria, era tão genuíno, que me enchia o coração.

A minha tia Isabel foi uma grande mulher, pela forma como enfrentou o seu sofrimento diário e lidou com a sua doença. Viveu uma parte significativa da sua vida presa no seu corpo. Consegue imaginar o que é viver décadas assim?

Na sequência de dois acidentes vasculares cerebrais e de um aneurisma, ficou com a fala apanhada e com metade do seu corpo paralisada. Teve uma lista interminável de problemas de saúde, em que cada um deles tinha a capacidade de terminar com a sua vida, mas ela aguentou-se firme. Superou desafios inimagináveis.

Viveu uma parte significativa da sua vida presa no seu corpo. Consegue imaginar o que é viver décadas assim?

Durante muitos anos viveu sozinha, mesmo com a sua limitação física. As tarefas diárias e domésticas que fazemos de uma forma automática e, às vezes, com queixume pelo meio, tornaram-se em desafios para a minha tia. Aprendeu a fazer tudo com o corpo que tinha. A casa estava sempre impecavelmente arrumada e limpa e cozinhava na perfeição.

A nossa vida passa a correr, há sempre muitas tarefas e muitas solicitações e, com frequência, temos de priorizar as nossas atividades. A minha tia Isabel passava horas sozinha em casa e sem ninguém para conversar.

O obstáculo da minha tia era o seu próprio corpo e não a sua cabeça. Ela compreendia tudo o que dizíamos, as suas memórias estavam intactas e tinha um discurso perfeitamente normal. Com exceção da fala, que piorou consideravelmente ao longo dos anos, a minha tia teve sempre consciência do seu estado e de tudo o que se passava em seu redor.

Nos últimos 16 anos estava num lar de idosos. Quando perdeu a força nas pernas e passou a estar sempre na cadeira de rodas, deixou de conseguir estar sozinha em casa.

O obstáculo da minha tia era o seu próprio corpo e não a sua cabeça.

No lar, ela fazia as refeições numa mesa sozinha e gostava de estar numa sala à parte, a pintar livros para colorir.

Recordo com alegria o riso da minha tia Isabel, que era muito expressivo, e a felicidade genuína quando a íamos visitar ao lar. Aliás, esta é a imagem que guardo no meu coração em relação à minha tia.

A minha tia ficava genuinamente feliz quando me via chegar ao lar e genuinamente triste quando me ia embora, e isto acontecia com todas as visitas que ela tinha, que acabavam por ser poucas. Não havia amigos e, das duas filhas, uma estava em Angola, pelo que as visitas eram sempre as mesmas.

Um dia, eu e a minha mãe fizemos uma surpresa à minha tia e fomos almoçar com ela. Ficou tão emocionada e eu também. Um gesto tão simples, mas com tanta importância para ela. 

Quando a ia visitar, saía do lar com o coração pesado, por a ver naquele estado, por a ver naquele lugar (ela não pertencia ali) e pela tristeza do olhar com que ficava por me ir embora. 

Espero que ela tenha encerrado todo o seu sofrimento nesta vida.

A pandemia complicou esta situação toda. Não havia visitas, ainda cheguei a ligar-lhe, mas não compreendia o que ela dizia. Mandava-lhe beijinhos e abraços.

Apesar da sua saúde, escapou à COVID-19. Foi internada no Hospital na sequência de uma infeção na bexiga e do início de uma pneumonia. Estava a responder bem ao antibiótico endovenoso e estava previsto o seu regresso ao lar, em breve.

A filha foi completamente apanhada desprevenida quando lhe deram a notícia do falecimento da mãe. Estava deitada e como não se conseguia mexer, nem chamar por socorro, teve um vómito que não conseguiu expulsar e, quando os profissionais deram com a situação, já não havia nada a fazer. 

Quando estava a falar com a minha prima, emocionei-me pela forma tão expressiva e sentida como disse que a mãe foi um exemplo extraordinário como mulher, e que sentia muito a falta de a ver, de a ouvir e de a sentir. 

A minha tia teve uma vida triste e muito pesada. Espero que ela tenha encerrado todo o seu sofrimento nesta vida.

Hoje, decidi prestar-lhe esta homenagem, despedir-me dela à minha maneira. 

Os que partem deste mundo precisam ser recordados. Se já perdeu alguém e está hoje a ler este texto, recorde algum ente querido que tenha partido da sua vida. Se tiver oportunidade, acenda uma vela e fale com essa pessoa. Recorde-a. Guarde-a no seu coração. E não se esqueça de estimar os vivos.

Na minha agenda, coloco os aniversários de nascimento e de falecimento para, nestes dias, os recordar de um modo particular. Infelizmente, na minha agenda, tenho datas que daria tudo para não as ter.

Desejo muita luz e paz à minha tia Isabel e que os dias do seu sofrimento tenham terminado.


Conversas Interiores - Signature - 800x290
Conversas Interiores - Icon - 25x25

Imagens de Brandi Redd e Doug Maloney via Unsplash

Uma opinião sobre “O Riso da Minha Tia

Deixe um comentário