Quando um dos sentidos fica comprometido

O corpo humano tem cinco sentidos principais: a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato. Todos são importantes, mas podemos afirmar que a visão é o sentido que domina a nossa vida. A maioria das informações recebidas pelo cérebro chegam através dos olhos. Os olhos recebem a luz e convertem-na em impulsos elétricos que são enviados para o cérebro, que processa estes sinais para formar as imagens que vemos.

Esta é a história de uma amiga que se tem debatido com problemas de visão, tendo perdido a visão no olho direito aos 29 anos.

Os olhos têm uma função importantíssima em quase tudo o que fazemos. Proteger, chorar, pestanejar, imprimir movimento e ver são algumas das principais funções do olho humano.

Das várias componentes do olho humano, a retina constitui a parte mais nobre. A retina é um tecido fino e frágil, situado na parte posterior do globo ocular e que contém milhões de sensores que convertem a luz em impulsos elétricos. Posteriormente, esses sinais são enviados pelo nervo ótico até ao cérebro, onde são processados para criar uma imagem.

Esta é a história de uma amiga que se tem debatido com problemas de visão, tendo perdido a visão no olho direito aos 29 anos.

A Vânia começou a usar óculos aos sete anos. Após o nascimento do filho, as dioptrias não paravam de aumentar e a Vânia foi proposta a uma cirurgia de colocação de lentes intraoculares. A cirurgia correu bem, os óculos e as lentes de contacto foram postos de parte e tudo parecia estar perfeito.

Num dia, numa mera brincadeira, a Vânia levou com uma pancada na cara, que lhe provocou muita dor, seguida do aparecimento de uma mancha preta e muito pequena no olho. De início, não deu muita importância, mas como a mancha persistia, a Vânia decidiu ir ao oftalmologista para ver o que se passava, mas o médico não observou nenhuma alteração. Disse-lhe que estava tudo bem e receitou-lhe um anti-inflamatório tópico para desaparecer a impressão que sentia. A Vânia estava longe de imaginar o resultado de toda esta situação.

O quotidiano da Vânia começou a ter alterações que a maioria de nós não se apercebe quando tem o sentido da visão a funcionar bem. Por exemplo, quando vertia água para um copo, não conseguia acertar dentro do copo. A nível profissional também se começou a aperceber de dificuldades e interrogava-se como é que as iria ultrapassar.

A Vânia tinha um descolamento da retina gravíssimo, que se foi agravando com o tempo.

A Vânia decidiu ir novamente ao oftalmologista, uma vez que a mancha tinha aumentado de tamanho e não sentia melhoras com a medicação que lhe tinha sido prescrita. A médica optou por realizar outro tipo de exames e a Vânia ficou logo alarmada quando viu a cara da médica ao ver o primeiro resultado e a sair da sala para ir chamar outro colega. 

A Vânia tinha um descolamento da retina gravíssimo, que se foi agravando com o tempo e tinha que se proceder a uma cirurgia de urgência para tentar salvar alguma visão naquele olho. A cirurgia ficou marcada para o dia seguinte e, na altura, depois de ouvir aquilo tudo, a Vânia ficou sem reação. 

O descolamento da retina é uma doença ocular grave que ocorre por separação da retina dos tecidos adjacentes do olho. Os fatores de risco compreendem a miopia, a história familiar de descolamento da retina, a cirurgia intraocular prévia, os traumatismos e algumas doenças sistémicas, entre outros. Calcula-se que a incidência desta doença seja de cerca de 1 em cada 1400 pessoas ao longo da vida. Apesar de poder surgir em qualquer idade, é mais frequente entre os 40 e os 70 anos. O tratamento é sempre cirúrgico. Por isso, na presença de alterações, é essencial não perder tempo e recorrer a um oftalmologista para avaliação da situação.

Ao fim de uma semana, da que seria a primeira cirurgia, a Vânia ficou com a visão perfeita! Sentia-se muito animada quando foi à consulta de acompanhamento, pois sentia que estava a recuperar bem e, aparentemente, a cirurgia tinha sido um sucesso. Esta sensação durou pouco tempo. 

A Vânia voltou a ficar sem visão no olho direito, mas desta vez não via mesmo nada. Seguiram-se mais cinco intervenções, sem sucesso. Tudo estava a acontecer tão depressa que nem dava para a Vânia pensar no que lhe estava a acontecer, apenas concentrava-se em tentar ficar bem. Na última consulta, o médico disse que tinha feito tudo o que era possível, mas que não foi possível recuperar a visão. Ficou de rastos.

A Vânia passou a ter medo de fazer quase tudo, porque não tinha a noção da distância. De todos os medos que sentia, apenas exteriorizava os estritamente necessários, ou seja, aqueles para os quais precisava da ajuda de terceiros. Não queria que se preocupassem com ela, que a olhassem como uma coitadinha ou que tivessem pena dela. Na altura em que tudo isto aconteceu, a Vânia tinha um filho muito pequeno e foi a ele que se agarrou para tentar ultrapassar todos os sentimentos menos bons.

Quem não conhece a Vânia não tem noção de que não vê do olho direito. Conseguiu adaptar-se, embora com limitações, sobretudo no que diz respeito à condução.

A Vânia sabia que tinha de vasculhar o seu interior à procura de razões e de forças para aceitar a nova condição, apesar de inicialmente achar que não seria capaz. Sentia-se incompleta e, de certa forma, inferior aos outros. Ela sabia que tinha de ser capaz de seguir em frente e ultrapassar os problemas que fossem surgindo, mas há dias em que se sente incapaz e é impossível esquecer a falta de visão. É uma condição que está sempre presente e que se aceita ou não aceita.

A Vânia foi a um especialista em Coimbra para ouvir uma segunda opinião. O médico foi muito direto e disse-lhe que devia preocupar-se com o olho esquerdo, pois era fundamental fazer um controlo apertado a este olho para garantir a visão deste lado. Do olho direito estava cega, não havia mais nada que se pudesse fazer. Com o tempo, pode vir a perder a cor, a forma e a pálpebra pode fechar, pois todos os órgãos que não têm uso, acabam por regredir. Contudo, também deu indicações para a Vânia continuar a fazer a terapêutica no olho direito, porque não se sabe o dia de amanhã e o médico “pode vir a precisar das peças do olho direito”, como referiu.

A Vânia saiu do consultório de rastos, na medida em que não era o que ela queria ouvir. Achou o discurso do médico muito forte, foi muita informação negativa debitada de uma só vez, mas simultaneamente entendeu que a prioridade dali em diante devia ser manter a visão do olho esquerdo e que, de alguma forma, devia sentir alguma satisfação pelo facto de ver de um dos lados.

As pequenas coisas, que anteriormente passavam despercebidas à Vânia, passaram a ter um valor inestimável. Fazemos inúmeras coisas no nosso dia a dia que dependem da visão, mas que nem nos damos conta. Só quando este sentido fica comprometido é que nos apercebemos do quanto dependemos dele para viver a nossa vida. 

Há momentos em que a Vânia se sente triste, mas não quer ficar presa a este sentimento, porque tem consciência que a sua situação não vai mudar. Tenta sempre dar a volta por cima, é uma pessoa super divertida, simpática, extrovertida e completamente maluca (no bom sentido). Ela acredita que os sentimentos que, numa fase inicial, nos derrubam, devem fazer-nos levantar a cabeça e seguir em frente.

Esta é uma história que ainda está a decorrer. Espero que tenha um final feliz.

Quem não conhece a Vânia não tem noção de que não vê do olho direito. Conseguiu adaptar-se, embora com limitações, sobretudo no que diz respeito à condução.

Passados oito anos desta perda de visão do olho direito, a Vânia vê-se confrontada com uma situação muito semelhante, mas agora com o olho esquerdo.

Numa altura em que estava de férias, a Vânia vai a uma consulta de rotina no centro especializado em Coimbra, onde passou a ser seguida. Fazem-lhe os exames todos e não sobressai nada de alarmante, excepto quando a Vânia refere que tem momentos que parece que vê uma mancha. Por precaução, decidiram fazer uns exames especiais e, mais uma vez, a Vânia reconheceu aquela expressão de sobressalto de que algo não está bem. Foi uma espécie de déjà-vu. O resultado seria a necessidade urgente de se fazer cirurgia ao olho esquerdo, pois estava com um descolamento da retina, mais uma vez, muito grave. 

A Vânia foi operada, a recuperação foi muito difícil e complicada e vai regressar ao trabalho passados três meses para ver como é que se sente na sua rotina diária, mas o médico já a avisou que não vai ficar por aqui. Vai ter necessidade de fazer procedimentos adicionais para manter a retina colada e preservar a visão do olho esquerdo.

No caso da Vânia houve decisões que determinaram o desfecho lamentável em relação ao olho esquerdo. Uma delas foi a cirurgia intraocular que fez para deixar de usar os óculos e as lentes de contacto. A Vânia tem uma retina muito frágil e, no seu caso em particular, estava desaconselhada a cirurgia. Depois, a atuação em relação ao descolamento da retina do olho esquerdo. A Vânia acredita que se tivesse sido tratada no centro onde atualmente agora é seguida, tinha conseguido recuperar a visão do olho esquerdo.

Apesar de este processo estar a ser mais difícil e doloroso, a Vânia está mais confiante, pois está a ser seguida num centro especializado na visão, com profissionais altamente especializados em problemas da visão e com um médico que lhe diz que está determinado em salvar-lhe o olho. Esta é uma história que ainda está a decorrer. Espero que tenha um final feliz.

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Images de v2osk e Kirill Balobanov via Unsplash

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