Os avós podem ser pessoas muito importantes para a nossa vida e podem ser um apoio essencial para os pais. Com os horários de trabalho e a correria habitual do dia a dia, ter avós que estão presentes e que apoiam os seus filhos na educação dos netos, pode ser uma autêntica dádiva. Depois, há ainda aqueles avós que têm a árdua tarefa de tomar conta dos netos, de os educar e de os ajudar a crescer, porque os pais não estão presentes.
Os avós têm uma disposição e abertura diferentes do que quando eram pais. A idade é diferente e fazerem parte da vida dos netos pode encher-lhes o coração e dar-lhes um novo sentido ao seu quotidiano. É tão bom quando os avós têm a possibilidade de estar ao lado de pessoas tão importantes como os seus netos.
Este texto é uma homenagem a todos os avós que têm ajudado os netos no seu desenvolvimento pessoal e uma forma de falar da minha avó Maria que me acompanhou até à adolescência.
É tão bom quando os avós têm a possibilidade de estar ao lado de pessoas tão importantes como os seus netos.
Eu tive uma educação católica. Acompanhei sempre a minha avó na missa. Íamos para a igreja muito cedo, ainda o sacerdote não tinha chegado e ficávamos a rezar e a conversar. À noite, quando se ia deitar, passava pela sala onde eu estava a ver televisão e fazia-me o sinal e eu já sabia o que significava, era a hora de ir rezar o terço, mas a minha avó não esperava por mim. Se eu me atrasava, começava a rezar sem mim. Às vezes, chamava-me mais do que uma vez. Havia alturas em que eu ia logo ter com ela, mas havia outras em que me apetecia ficar a ver televisão e chegava mais tarde.
Entrei para a catequese com 5 anos e, nessa altura, já a minha avó me tinha ensinado as orações principais.
Recordo com carinho a tradição da Sagrada Família passar de casa em casa. O percurso estava definido previamente. Quando iam entregar a Sagrada Família a casa dos meus pais, lembro-me de rezar com a minha avó e depois íamos deixar a Sagrada Família a casa da nossa vizinha, a D. Alberta.
Por altura das confissões, a minha avó enumerava as minhas faltas, e que eram sempre as mesmas: num domingo qualquer tinha faltado à missa, ou tinha faltado à catequese, ou tinha respondido torto a alguém.
Tinha um truque excelente de me tirar da cama e que consistia em preparar uma mesa de pequeno-almoço deliciosa com bolos e pão fresco que a minha avó ia comprar à padaria logo pela manhã. Podia-me chamar uma série de vezes que eu não me levantava, mas se me segredasse ao ouvido que tinha comprado bolos e pão, levantava-me imediatamente e sentava-me à mesa a tomar o pequeno-almoço, que me sabia maravilhosamente bem. Nunca mais consegui ter esta sensação associada a esta refeição do dia.
Uma vez, só para faltar à escola, simulei que estava doente e fui tão convincente que a minha mãe acreditou que eu estava doente, pois até ao médico me levou, mas a minha avó segredou-me que sabia que eu estava a fingir.
Recordo que me sentia sempre muito contente quando via a minha avó passar pela minha escola. Dizia-me sempre adeus. No primeiro ciclo fugi da escola nos três primeiros anos. Pedia à professora para ir à casa de banho, mas fugia para casa. Era a minha avó que me levava de volta à escola, com um saco de laranjas da nossa laranjeira para eu dar à professora como pedido de desculpa.
Uma vez, só para faltar à escola, simulei que estava doente e fui tão convincente que a minha mãe acreditou que eu estava doente, pois até ao médico me levou, mas a minha avó segredou-me que sabia que eu estava a fingir. É claro que eu desmenti, mas não conseguia enganar a minha avó. O que me valeu foi que ela não me denunciou. Ainda por cima, tinha um teste nesse dia e não tinha estudado nada. A desculpa foi-me muito útil. Fazia isto para chamar a atenção da minha mãe que, por motivos profissionais, passava muito tempo fora de casa.
Vi a minha avó ajudar quem precisava. Já com uma idade avançada e em pleno verão, nas horas de maior calor, em que não apetecia sair à rua, ela ia dar uma palavra amiga a quem precisava, distribuía roupa e alimentos e oferecia flores. Cuidou da igreja como quem cuida da casa.
Na altura da minha infância, não havia as opções de atividades extracurriculares como há agora e os horários dos autocarros deixavam muito a desejar. Havia muito poucos. Eu vivia numa aldeia e os meus pais estavam pouco tempo em casa, pelo que a minha avó foi uma companhia muito presente e forte.
Foi muito bom a minha avó ter morado sempre connosco, até mesmo quando ficou doente. Nunca deixámos a minha avó sozinha. Houve um ano em que os meus pais ponderaram deixar a minha avó num lar de idosos para irmos de férias para a praia, e ainda me recordo de ir com eles a alguns lares, mas depois optaram por ficarmos em casa. Tivemos uma senhora que ajudava na limpeza da casa e com a minha avó, e que foi uma ajuda preciosa, na medida em que a minha avó ficou acamada durante cerca de um ano e meio.
Durante o tempo em que a minha avó ficou acamada, teve muito poucas visitas, tendo em conta todas as pessoas que ela ajudava. A minha avó sofreu muito, tinha muitas dores, chorava e tinha momentos que não sabia onde estava nem nos reconhecia.
A minha avó nunca me disse que me amava, apesar da necessidade que eu tinha de ouvir da parte dela o quanto ela gostava de mim. Mas acabou por o dizer com os gestos que teve para comigo. As mulheres da minha família são muito independentes e pouco dadas a mimos. Eu, pelo contrário, sou muito meiga.
Tinha 15 anos quando a minha avó faleceu. Nessa noite, recordo-me de estar sentada à beira da cama e lentamente ver os seus olhos fecharem-se e a respiração parar.
Recordo com carinho um momento que partilhei com a minha avó. Houve um dia em que estivemos a ver fotografias e, no final, ela passou com o dedo pelo meu rosto, agarrou-me e disse que gostava muito de mim. Olhou-me com aqueles seu olhos grandes, claros e bonitos, sorriu-me e disse que eu era muito bonita. Senti-me muito comovida e ficava sempre feliz quando a minha avó tinha um gesto mais carinhoso para comigo.
A minha avó ficou connosco até ao fim. Morreu em casa, na sua cama, na companhia das duas filhas (a minha mãe e a minha tia Joana), do meu pai que cuidou dela como se tratasse da mãe e dos três netos (eu, o meu irmão e a minha irmã). Todos a vimos partir, depois de um longo sofrimento com a doença renal crónica, que a afetou já com idade avançada. Tinha 15 anos quando a minha avó faleceu. Nessa noite, recordo-me de estar sentada à beira da cama e lentamente ver os seus olhos fecharem-se e a respiração parar.
Na missa do funeral, enquanto o Padre Campos falava, pensei que, se olhasse muito tempo para a minha avó, ela ia acordar. Pensei em abaná-la para ver se voltava para junto de mim, mas compreendi que a sua hora tinha chegado, que tinha sofrido demasiado para continuar a viver e que eu estava a ser egoísta. Jesus precisava da minha avó.
Acredito que a minha avó morreu feliz com a vida que teve e em paz. Todas as pessoas comentaram o rosto de serenidade da minha avó, que parecia ter um ligeiro sorriso. Foi muito comovente.
O quarto que era da minha avó passou a ser o meu. Foi uma forma de me manter ligada a ela. Tenho momentos em que sinto saudades de rezar com a minha avó, de lhe preparar o lanche, de ter aquela mesa do pequeno-almoço que ela preparava e que eu tanto gostava, mas, acima de tudo, durante muitos anos senti falta de chegar a casa e não ter a minha avó a receber-me.
Os avós podem ser pessoas muito importantes na vida dos netos, na medida em que são uma referência familiar, uma fonte de histórias e representam uma forma especial de amor, diferente da dos pais.
Percebi que tinha de encontrar a minha forma de rezar e de viver a minha relação com Deus e, com o tempo, fui ganhando consciência das palavras que pronunciava quando rezava e passei a ter a minha identidade espiritual própria. Olhando para trás, dou conta de que a minha avó foi uma figura muito presente e importante para mim e foi um excelente exemplo de pessoa a todos os níveis. Espero que sinta orgulho da pessoa em que me tornei. Dou graças pela minha avó e pelo tempo de convivência que nos foi proporcionado.
Como referi no início desta conversa, os avós podem ser pessoas muito importantes na vida dos netos, na medida em que são uma referência familiar, uma fonte de histórias e representam uma forma especial de amor, diferente da dos pais.
Para os avós que têm de educar os netos, a tarefa é mais desafiante. De certa forma, tornam-se em seus segundos filhos. Apesar de poder ser muito recompensadora, esta situação também tem as suas dificuldades. As diferenças de idade e de gerações, o repetir todo um processo de educação, o ter que ir buscar à escola, o ter que os acompanhar e orientar nas suas atividades e nas escolhas de vida que fazem, o terem que se preocupar com a roupa que vestem e que roupa precisam, pode ser muito desgastante e sentem, de certeza, dificuldades em muitos aspetos.
Há também os avós que não têm a oportunidade de ver os seus netos crescerem e acho que deve ser uma situação difícil e dolorosa para os avós que gostariam de fazer parte da vida dos netos.
O relacionamento entre avós e netos deve ser encorajado, porque pode ser muito saudável para ambos. Contribui de uma forma positiva para o desenvolvimento dos netos e é uma fonte de contentamento para os avós.
Faça hoje qualquer coisa de especial pelos seus avós. Se fizeram parte da sua vida, ligue, fale com eles, dê-lhes um abraço, partilhe o que sente por eles ou, simplesmente, dedique um pouco do seu tempo a recordar momentos que tenham vivido em conjunto.



Imagem de Marija Gaba via Unsplash
