A avó do meu marido chamava-se Emília e faleceu a 16 de junho de 2019, com 94 anos. Teve uma vida cheia e uma saúde de ferro, em que só a partir dos 80 anos começaram a surgir algumas complicações de saúde. Na família, apesar do coração ser fraco, têm todos uma vida longa e sem grandes problemas de saúde.
No funeral estavam presentes poucas pessoas, a família mais próxima e conhecidos/vizinhos da D. Emília. Nos funerais encontramos sempre pessoas que já não vemos há muito tempo. Pessoas que só vemos nos casamentos ou nos funerais.
O Santiago recordou com carinho as memórias que tem da avó e sente pena de não terem sido mais próximos.
A família do lado paterno do Santiago é distante e pouco dada a afetos. Do lado materno já não era bem assim. Porém, houve um familiar do lado paterno que, há muitos anos atrás, teve uma iniciativa fantástica. Este familiar chegou a fazer a árvore genealógica da família e convidou toda a gente para um almoço em casa dele. Chegaram a fazer um jogo muito engraçado em que o grupo se organizou por famílias e fizeram um concurso que consistia em responder a perguntas sobre outras famílias e sobre os seus antepassados. Apesar de ser muito novo, o Santiago recorda com carinho este dia diferente e tão bem passado. Fica aqui esta ideia divertida para quem quiser aproximar as famílias, nem que seja por um dia. Pode haver relações que se estreitam com esta iniciativa.
O Santiago recordou alguns momentos passados com a avó, que não era muito dada a afetos. O Santiago não se recorda da avó o ir buscar à escola, de lhe dar abraços, de o aconchegar ou de brincar com ele. Lembra-se das broas que a D. Emília fazia e que eram deliciosas, as melhores que ele alguma vez provou, e cuja receita o Santiago já tentou reproduzir, mas sem sucesso (o sabor não foi o mesmo). Quando o Santiago ia a casa da avó, ela dava-lhe pão com queijo e perguntava-lhe sempre: “Estás bem?”, seguido do “Estás gordo”, mas dito de uma forma em que ser rechonchudo era sinónimo de saudável. Dizia-lhe também para arranjar um emprego em Santarém e não em Lisboa, como se esta última fosse uma cidade muito distante.
Lembra ainda as galinhas do quintal da avó, a máquina de costura, o rádio e o dia de Natal que era sempre celebrado em casa da avó. Tem ideia que a prenda que a avó dava sempre ao tio do Santiago era um queijo flamengo embrulhado.
O Santiago recorda com piada os ataques de riso da D. Emília, que se ria dela própria, com disparates que dizia e que chegava a chorar de tanto rir. Dizia que não podia beber bebidas com gás, porque depois não dormia, mesmo que fosse ao almoço.
Se fosse viva, faria hoje 95 anos de idade.
A D. Emília adorava uma telenovela brasileira que se chamava “Dona Xepa”, exibida em 1977. Depois desta, todas as que se seguiram eram chamadas de “Xepa”.
Com frequência, o Santiago ia almoçar a casa da avó. Para não se esquecer que o almoço era em casa da avó e não dos pais, a mãe do Santiago atava-lhe uma linha de costura ao dedo. Ele deixava sempre a bicicleta em casa da avó, nunca a levava para casa dos pais.
Nos últimos quinze anos, a D. Emília queixava-se da falta de forças que tinha nas pernas. Referia com frequência que o médico não resolvia o problema da falta de força nas pernas e dizia sempre que “para o ano já cá não estou”, mas estava.
O Santiago recordou com carinho as memórias que tem da avó e sente pena de não terem sido mais próximos.
Se fosse viva, faria hoje 95 anos de idade. No cartão feito pela agência funerária vinha escrito o seguinte: “Não chores por quem já está junto a Deus … Pensa nos momentos felizes que passaram juntos e em Deus, por ter deixado esta pessoa brilhar na tua vida.”
Desejamos que a D. Emília fique em paz e que a luz de Deus brilhe sobre ela.



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