O valor da despedida

Há 8 anos, tive a oportunidade de me despedir da minha irmã. E foi tão importante para mim!

Na última noite da minha irmã, eu e a minha mãe ficámos com ela no hospital. Não conseguimos dormir nada, mas agradeço a Deus esta noite que Ele me proporcionou com a minha mana, porque ainda nos rimos com algumas respostas que ela nos deu e que eram típicas da Ana. 

Sem a minha mãe e a minha irmã se aperceberem, no meio da escuridão e do silêncio daquele quarto de hospital, agarrei-me à mão da minha irmã e chorei, chorei e chorei. Chorei pelo facto de, muito provavelmente, ser a última vez que iria estar a agarrar a mão da minha querida mana. Chorei pelo facto de a ver naquele estado, tão diferente da pessoa que ela era. Chorei pelo pouquíssimo tempo que lhe restava. Chorei pela vida que teve. Chorei pelo enorme sofrimento pelo qual passou. Chorei por todos os desafios que teve de enfrentar. Chorei porque era obrigada a despedir-me dela e eu não queria ter de o fazer. Chorei pela dor dos meus sobrinhos. Chorei pela dor dos meus pais.

Este momento foi muito importante para mim. De alguma forma, deu-me um sentimento de paz. Quando o recordo, penso que não fiquei com nada por lhe dizer. Ela sabia o quanto eu a amava. Naquele momento, foi como se lhe prometesse que, apesar de irmos ficar em dimensões diferentes, eu nunca a iria esquecer nem nunca ia deixar de gostar dela.

Houve um outro momento no hospital que me marcou muito. Uma tarde, quando cheguei com o nosso irmão, eu dei-lhe um beijinho no peito e ela deu-me um abraço e um beijinho no cabelo. Este gesto tocou-me de tal forma que, quando a larguei, fiquei de costas para ela e limpei as lágrimas para ela não perceber o quanto eu tinha ficado sensibilizada com aquele gesto.

Manteve-se lúcida até ao fim e não consigo imaginar o que terá pensado ou sentido. Tive vislumbres do seu sofrimento, que não passaram disso mesmo.

Para o funeral escolhi uma roupa que gostava muito de a ver e que ela usou quando fui com ela a uma consulta em Aveiro. Levou a peruca que mais gostava de se ver e pedi para lhe colocarem alguma cor no rosto.

Quando eu e o Santiago voltámos ao hospital para a buscar, ainda tenho a imagem do seu corpo sem vida, numa mesa da morgue, já arranjada pelos senhores da agência funerária. Aquela era a minha irmã e questionei-me como era possível estarmos naquela situação. Apeteceu-me voltar atrás no tempo e congelar um momento em que a Ana estivesse viva e feliz. Apeteceu-me agarrar nela, abraçá-la e pensei o quanto esta morte era injusta. Porquê?

Não tenho arrependimentos em relação à minha irmã. Tentei estar presente o quanto me foi possível. Se calhar, podia ter feito mais ou ter estado mais tempo com ela. Ficamos sempre com aquele sentimento que o tempo que passámos juntas nunca foi o suficiente e penso, muitas vezes, nas experiências que ficámos privadas de viver as duas. 

Sinto falta de poder agarrar no telefone e ouvir a voz dela. Sinto falta de sair com ela, irmos às compras, vermos as lojas, partilharmos uma refeição, … Sinto tristeza por a vida lhe ter sido interrompida aos 43 anos, a minha idade atual.

Desde ontem à noite, que tenho uma vela no meu altar, enfeitado com flores. Hoje, na missa, pedi que a intenção fosse para ela. Quero que a Ana esteja em paz e tenha muita luz.

Os que nos deixam, sentem a nossa falta, têm medo de ser esquecidos pelos que cá ficam, precisam ser recordados e precisam de ficar no nosso coração. Continuamos com a nossa vida, vivemos a nossa vida, mas tendo-os sempre junto a nós. 

Nos dias em que me sinto mais desamparada, penso sempre em todas as pessoas que já perdi e em tudo o que eles não podem experienciar mais e sinto que tenho de me libertar do que quer que me esteja a entristecer ou desanimar, porque tenho a oportunidade de continuar, de fazer diferente, de decidir, e isso é algo muito valioso.

Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” – Antoine de Saint-Exupéry

Foto de Farrinni via Unsplash

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