“Perdi o meu filho. E agora?”

Perder um filho é uma experiência avassaladora, considerada contranatura e que abala o sistema de crenças e de valores.

Atendi uma utente que perdeu o filho há sete meses, num acidente de mota. Faleceu no local do acidente, perto de casa. O João tinha mudado os dois pneus há pouco tempo e suspeita-se que o acidente tenha resultado da falta de aderência dos pneus à estrada. 

A mãe recebeu um telefonema do melhor amigo do João e, sem saber como explicar, quando olhou para o número de telefone, gritou que o filho tinha morrido.

Aos 34 anos, a vida do João foi interrompida de forma abruta e, com a sua morte, a vida de Maria também parou.

Esteve um mês internada na Psiquiatria, mas decidiu terminar com as consultas e os medicamentos, porque diz que tem de fazer o luto à sua maneira.

A Maria e o João tinham uma relação fantástica. Eram mãe e filho, amigos e confidentes. Ele era filho único e tinha uma vida feliz e confortável. O João não era casado nem tinha filhos. 

A vida de Maria mudou de um instante para o outro, com uma violência assustadora. Quando chegou ao local do acidente, viu o corpo do seu filho deitado no chão, sem vida. Aos 34 anos, a vida do João foi interrompida de forma abruta e, com a sua morte, a vida de Maria também parou.

Com os olhos lavados em lágrimas, fala da falta que sente do filho, da confusão que lhe faz ter de tratar de certos assuntos, como a mudança de testamento, uma vez que tinham colocado bens em nome do João. Maria não tem mais filhos e o marido passa muito tempo fora. A solidão de Maria é ainda maior, agora que não tem o seu filho. Confessa que tem o desejo de adormecer e não voltar a acordar.

Maria refere que tem a consciência tranquila em relação ao João, uma vez que sempre o apoiou em tudo o que precisou. As suas recordações confortam-na, porque são excelentes. 

À semelhança de Maria, também a minha mãe perdeu a sua primeira filha. 

Ao longo dos anos, a minha mãe assistiu à luta que a filha travou contra o cancro da mama e viu-a perder todas as batalhas. A minha mãe ajudou a minha irmã de todas as formas que lhe foi possível, mas é uma sensação de impotência horrível assistir a todo este sofrimento e não ser capaz de lhe dar saúde ou trocar de lugar com ela.

À semelhança de Maria, também a minha mãe perdeu a sua primeira filha.

Depois da morte da minha irmã, a minha mãe reformou-se e dedicou-se exclusivamente aos netos. Tem sido um apoio fantástico para os meus sobrinhos e o meu cunhado. Suportar a ausência da mãe e da mulher seria tremendamente mais difícil se a minha mãe não estivesse presente. Este apoio precioso é uma forma de honrar a memória da minha irmã e de suportar a sua terrível ausência.

Também a Rosele perdeu a sua única filha, depois de uma luta contra a leucemia. A Magda era uma amiga de infância, que morava numa casa modesta. O seu sonho era ter uma casa linda, com um quarto só para ela. O pai era construtor e construiu a casa de sonho para a Magda. Pouco tempo depois de se mudar, ficou doente e, aos 15 anos, sucumbiu à doença.

Todas estas vidas interrompidas são uma dor que se pode tornar demasiado pesada para os pais, em que cada dia que acordam é um pesadelo, pois não é suposto os pais viverem mais tempo que os seus filhos. 

Com a perda de um filho, a vida pode deixar de fazer sentido. Continuar a viver pode ser confuso e doloroso. Cada acordar pode ser um desafio, mas é importante que os pais se levantem, se arranjem e se mantenham ocupados. Devem de o fazer pelos seus filhos que partiram e não têm mais a possibilidade de viverem aventuras. 

Todas estas vidas interrompidas são uma dor que se pode tornar demasiado pesada para os pais, em que cada dia que acordam é um pesadelo, pois não é suposto os pais viverem mais tempo que os seus filhos. 

Cada pai e mãe deve, interiormente, aprender a converter a revolta e a amargura em algo de positivo para a dor se tornar mais tolerável. Pode ser terapêutico apoiar os netos, estar mais presente na vida dos outros filhos, escrever um diário, cuidar da campa, pertencer a um grupo de apoio, aprender uma atividade praticada pelo filho que faleceu, …

Honrar a memória dos que partiram passa não só por os recordar e tê-los no pensamento, mas também por continuar a viver. Não é possível viver a vida da mesma forma, nada pode trazer os filhos de volta, mas é importante que os pais se mantenham a funcionar e descubram como podem continuar a fazer a diferença neste mundo. 

Este texto é dedicado à Maria, à minha mãe, à Rosele e a todos os pais que já perderam os seus filhos. Mas é também uma homenagem ao João, à Ana, à Magda e a tantos outros que viram as suas vidas interrompidas pela doença ou por algum acidente. Desejo que alcancem a paz e tenham muita luz.

Estime os seus filhos. Demonstre o que sente. Não perca tempo com futilidades. Seja o que os seus filhos precisarem. Aproveite o tempo em que os pode ver, ouvir, sentir, falar e tocar. 

Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Antoine de Saint-Exupéry

Conversas Interiores - Signature - 800x290
Conversas Interiores - Icon - 25x25

Imagem de DDP e Markus Winkler via Unsplash

Deixe um comentário