Para além da pandemia

A COVID-19 como uma sindemia

O ano 2021 começou com números alarmantes em relação à pandemia. O comportamento dos portugueses no Natal e no Ano Novo, a diminuição do medo da doença, o desgaste generalizado de uma situação que se arrasta há quase um ano e a expectativa em relação à vacina descarrilaram a situação do país em relação à COVID-19.

No início da pandemia, Portugal foi elogiado pelos seus resultados, mas atualmente somos conhecidos pelas piores razões. Pela primeira vez, desde o início da pandemia, a 2 de março de 2020, Portugal é o país com maior número de óbitos e mais casos de infeção por milhão de habitantes em todo o mundo.

A forma como um país responde a uma situação de pandemia revela muito dos seus cidadãos e dos seus governos, a nível individual e coletivo. 

A capacidade de disseminação deste vírus expõe as fragilidades das sociedades e obriga-as a encarar o que pretendem escamotear, como a vulnerabilidade dos idosos, das comunidades étnicas minoritárias, dos trabalhadores essenciais que têm frequentemente salários baixos, das condições de vida e dos transportes das periferias para as grandes cidades.

A forma como um país responde a uma situação de pandemia revela muito dos seus cidadãos e dos seus governos, a nível individual e coletivo. 

A capacidade de disseminação do novo coronavírus depende muito do comportamento individual de cada um dos cidadãos, dos seus valores, da sua capacidade de perceber a realidade da situação, de sentir empatia pelos outros e do seu nível de literacia.

A literacia refere-se à capacidade de os cidadãos usarem a leitura e a escrita como forma de adquirirem conhecimentos, lidarem com os vários problemas que a sociedade contemporânea lhes coloca, desenvolverem as suas próprias potencialidades e participarem ativamente na sociedade. Portugal revela um perfil de competências de literacia preocupante.

Um estudo sobre literacia da população adulta portuguesa revelou uma concentração acentuada da população portuguesa nos níveis mais baixos de literacia. 

A literacia também pode ser avaliada do ponto de vista dos conhecimentos dos cidadãos em relação à saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2013), a literacia é o indicador mais forte do estado de saúde de um indivíduo.

Segundo um estudo europeu, que avaliou os níveis de literacia em saúde em várias dimensões, 61,4 % da população inquirida portuguesa apresenta um nível de literacia geral em saúde problemático ou inadequado, situando-se a média dos nove países participantes em 49,2 %. Em pior situação que os portugueses só se encontram os búlgaros, com 62,1 % da população com níveis de literacia em saúde problemáticos ou inadequados. No polo oposto está a Holanda, país em que esta percentagem é de apenas 28,7 %.

Um estudo sobre literacia da população adulta portuguesa revelou uma concentração acentuada da população portuguesa nos níveis mais baixos de literacia. 

Estes dados são importantes, porque a forma como os cidadãos portugueses respondem a uma situação como a que estamos a viver atualmente, está muito dependente do seu entendimento em relação ao que o rodeia, influenciando a sua capacidade de adesão e de cumprimento às medidas preconizadas para proteção da COVID-19. A baixa literacia tem custos para o indivíduo e para a comunidade merecendo, por isso, uma reflexão séria. 

Uma sociedade adoecida do ponto de vista educacional, económico, social, moral, da sua literacia, elevam a pandemia para uma sindemia.

O diretor da revista científica The Lancet, argumenta que a COVID-19 merece uma abordagem diferente, porque estamos perante não só uma pandemia, mas uma sindemia: a interação entre um problema de saúde e o seu contexto económico e social. 

Richard Horton refere que a procura de uma solução puramente biomédica para a COVID-19 revela-se um completo falhanço e não teremos aprendido nada que nos permita lutar contra outras futuras pandemias. Para sermos bem-sucedidos na luta contra esta pandemia, é preciso reverter as profundas disparidades que caracterizam as nossas sociedades.

Uma sociedade adoecida do ponto de vista educacional, económico, social, moral, da sua literacia, elevam a pandemia para uma sindemia.

Segundo o autor, a abordagem da COVID-19 como uma sindemia vai envolver-nos numa visão mais ampla, abrangendo a educação, o emprego, a habitação, a alimentação e o meio ambiente. E podemos também acrescentar outras dimensões, como as condições dos idosos, a segurança e os transportes. Alerta que encarar a COVID-19 apenas como uma pandemia exclui tal perspetiva mais ampla e necessária, que nos pode ensinar onde investir as toneladas de dinheiro sem que tudo se mantenha igual.

Uma abordagem sindémica oferece uma abordagem muito diferente à medicina clínica e à saúde pública por mostrar como uma abordagem integrada para a compreensão, prevenção e tratamento de doenças pode ter muito mais sucesso do que simplesmente controlar a doença epidémica ou tratar eficazmente um doente. (Singer et al., 2017).

Cada um de nós pode contribuir para desacelerar a pandemia. Usemos esse poder. O risco está sempre presente, mas podemos potenciar ou mitigar o risco. Sejamos amigos de nós próprios e dos outros.


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Imagens de Diego Gennaro e Ryoji Iwata via Unsplash

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