Quero recordar aqui uma data em particular, 4 de setembro de 2014, um dia que passei com a minha irmã. É bom termos um diário para reavivar a memória de determinados detalhes.
Combinei estar em casa dela por volta das 12 h 30 min, mas às 12 h 46 min ligou-me para saber onde é que eu estava. Achei este gesto curioso, como se tivesse receio que eu não aparecesse.
Almoçámos os três (eu, a minha irmã e o meu sobrinho Tomé). Conversámos sobre os meus sobrinhos, a doença da minha irmã e a necessidade de ela ter sempre alguém presente quando o ano letivo começasse.
Olhei demoradamente para a minha irmã (…) mas foi o seu olhar que me deu cabo do coração.
Durante o almoço, olhei demoradamente para a minha irmã. Tinha o cabelo muito curto porque iniciou um novo ciclo de quimioterapia, estava extremamente magra, tinha algumas manchas nas mãos e no rosto, mas foi o seu olhar que me deu cabo do coração. Era um olhar desolador, de quem se sentia desamparado e com uma tristeza demasiado pesada.
À tarde, fui buscar o Benjamin (o meu sobrinho mais velho) à estação, fui dar umas voltas à cidade com o Tomé (o meu sobrinho mais novo) e regressei a casa da minha irmã para passar o resto do dia com ela.
Estive a fazer-lhe bichinho nas pernas e nos pés, que ela adorava. Apeteceu-lhe um queijo fresco e eu fui buscar à mercearia. Quando cheguei junto dela, estava a ver a página de Facebook de uma menina, que tinha cancro, e ficou em choque quando soube que a menina tinha falecido. O momento que se seguiu foi muito intenso.
Quando estava com a minha irmã, tinha o comportamento mais normal que me era possível ter. Falávamos do dia a dia, de assuntos mais sérios e conversávamos abertamente sobre a doença dela. A Ana detestava que sentissem pena dela e que a tratassem de um modo diferente. Eu conseguia transmitir-lhe força e confiança. Conseguia aguentar-me em momentos emotivos e contrariava o discurso dela quando começava com conversas sobre desistir, que já não aguentava mais e que não conseguia fazer determinado exame ou tratamento. Visto de fora, parecia que eu era fria e insensível, mas era absolutamente necessário porque a minha irmã não podia ver nem sentir em mim dúvida no seu processo de recuperação.
Ela precisava de ver em mim e de sentir através de mim segurança, confiança e fé. E porque eu entendia que era normal a Ana ter estas crises de dúvida, de querer desistir, na medida em que a doença é altamente desgastante e saturante e tem a capacidade de mudar as pessoas. Não é uma doença que se possa colocar em pausa. Contudo, naquele momento em particular, não me contive e precisei de chorar com ela.
A Ana detestava que sentissem pena dela e que a tratassem de um modo diferente.
A Ana agarrou-se a mim a chorar como se fosse uma criança a precisar de colo. Disse-me que todos acabavam por morrer. Se as pessoas com cancro que ela conhecia, eram tão fortes e tinham tanta fé, acabavam por falecer, então, o mesmo destino também lhe estava reservado.
Confidenciou-me que estava farta de sofrer, sentia-se muito saturada e que o melhor era desistir, mas que não queria ainda morrer e que queria ficar por cá mais um tempo, até ver os filhos orientados. Falou do medo que sentia em morrer. Eu agarrei-me a ela, dei-lhe beijinhos e só fui capaz de lhe dizer que ela ainda cá estava. Outros já não estavam entre nós, mas ela ainda estava connosco, e só isso é que me importava.
O Benjamin apareceu, limpámos as lágrimas e fomos lanchar. Durante o lanche, perguntou-me se nós (a família) estávamos conformados com a ideia do que lhe ia acontecer. Não há palavras com intensidade suficiente que consigam descrever o que senti naquele instante. Fiquei completamente atónita e desamparada. Olhei para ela com um ar completamente idiota, desatei a chorar e pedi-lhe para que nunca mais me dissesse uma coisa daquelas porque ninguém queria que ela morresse.
A Ana confessou-me que tinha medo de que nós lhe estivéssemos a esconder alguma informação, mas eu respondi-lhe que não, uma vez que até era ela quem falava com os médicos.
Não queria ainda morrer e que queria ficar por cá mais um tempo, até ver os filhos orientados.
Revelou que não sabia quanto mais tempo o seu corpo ia aguentar e que queria ver os filhos crescer mais uns anos. Eu respondi-lhe que, contra todas as expectativas, ela tinha sobrevivido. Qualquer outra pessoa, depois de tudo o que ela passou, já tinha partido. Até há bem pouco tempo, a Ana fazia a vida dela de forma independente, precisando de ajuda apenas em momentos pontuais. Quem estava de fora, não percebia que estava doente nem a gravidade da doença.
Também lhe disse que somos insubstituíveis. Cada um de nós tem o seu lugar, o seu papel e que há uma luz e uma energia que se extinguem, fica um vazio e uma saudade, tudo muda com o nosso desaparecimento, porque nada nem ninguém fica na mesma. Portanto, não se pode falar da perda de alguém de forma superficial, na medida em que o desaparecimento de uma pessoa deixa marcas nos que cá ficam.
A minha irmã é a peça central que fazia andar tudo na sua família. Nada nem ninguém consegue substituir a minha irmã.
O meu coração fica todo rebentado quando ela me disse que ainda tinha uma esperança secreta de que, num último instante, aparecesse algo que a traria de volta para a vida.
O meu coração fica todo rebentado quando ela me disse que ainda tinha uma esperança secreta de que, num último instante, aparecesse algo que a traria de volta para a vida. Depois disto, limitei-me a ficar presente, ali com ela, embora me sentisse completamente desesperada.
Neste momento, e depois de tantos anos em luta contra esta doença malvada, em que se fizeram tantos tratamentos, cirurgias, em que tanto se rezou, se implorou a Deus e se chorou, chegou o momento do silêncio. A minha irmã confessou que já não sabia o que dizer mais nas orações, era apenas silêncio. À noite, quando se deitava, ficava em silêncio com Deus porque não sabia o que mais Lhe havia de dizer. Eu respondi-lhe que não precisava de dizer nada e que o silêncio era uma forma de comunicação e um modo de ligação a Deus.
Eu chorava enquanto conduzia, quando estava em casa e quando estava sozinha no emprego. Pensava na minha irmã, no seu rosto, em todos aqueles anos de sofrimento e de luta e invadia-me uma tristeza e uma impotência avassaladoras. Pensava na injustiça de toda esta situação, na revolta que sentia e perguntava-me até quando a Ana ia aguentar a luta contra este inimigo?
Eu chorava enquanto conduzia, quando estava em casa e quando estava sozinha no emprego.
Muito pouco tempo depois, a minha irmã foi para a Unidade de Cuidados Continuados do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa.
À semelhança do que escrevi no texto anterior, esta é a história da minha irmã e do que eu vivi com ela. Acho importante mostrar este lado mais sombrio, em que a pessoa se sente mais exposta e frágil porque é um aspeto pouco falado, mas que todos passam, embora cada um à sua maneira. Cada um terá a sua própria versão em relação à doença. Se for próximo de alguém que esteja com uma doença grave, esteja presente na vida dessa pessoa. Não desapareça ou não apareça só quando lhe dá jeito, porque o tempo da pessoa que sofre é diferente do seu tempo. Passe o máximo de tempo que for possível. Eu fiz tudo o que podia pela minha irmã, estive presente e não me arrependo de nada. Há tempos para tudo. Há momentos em que temos de nos entregar mais à parte profissional, noutros momentos temos de olhar mais para nós e noutros temos de colocar tudo em pausa para apoiarmos quem precisa de nós.
Irmãs. Sim, apenas irmãs.
Não há heroísmos na nossa história, nem grandes momentos a recordar.
Lembro-me de dias tranquilos – sem grandes dramas, nem grandes atos de devota fidelidade. Mas, quando preciso de apoio, sinto que está sempre a meu lado.
Hei-de senti-lo sempre.
Helen Thomson, n.º 1943 in Irmãs, da Editorial Estampa



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