A história de uma lutadora

diagnóstico, superação e recaída

A reação das pessoas com quem nos relacionamos perante determinadas situações mostram a sua verdadeira natureza, podendo-nos surpreender, tanto pela positiva como pela negativa. 

As situações vividas pela minha irmã ao longo da sua vida fizeram emergir uma força poderosa que lhe permitiu lutar durante anos contra um cancro agressivo.

Quando o diagnóstico de cancro da mama apareceu foi um balde de gelo, que nos deixou ainda mais atordoados quando soubemos que se tratava de um cancro da mama triplo negativo.

Associado ao diagnóstico de um cancro há uma avalanche de emoções difíceis de assimilar. A luta contra o cancro faz-se em duas frentes: corpo e mente. É com as emoções, o turbilhão de sentimentos contraditórios, as inúmeras interrogações e os medos que a guerra contra o cancro tem um lugar singular. Fica-se preso a uma espécie de lugar em que há luz e escuridão, dúvida e fé, medo e coragem, luta e desistência. Trata-se de um combate solitário e incompreendido, mesmo que se tenha todo o apoio de que se necessita.

O cancro é astuto e, durante o falso período de recuperação, esteve a ganhar forças sob um manto de invisibilidade.

A minha irmã passou por todas as fases. Foi operada, fez mastectomia e esvaziamento axilar, foi submetida a quimioterapia e a radioterapia. Ficou sem cabelo e viu o seu corpo transformar-se. Foi um período muito doloroso. Entretanto, foram passando aqueles anos de ansiedade permanente, sobretudo quando se vai fazer análises e exames complementares para analisar se a doença está ou não a regredir. É sempre uma vitória e um alívio quando os exames mostram sinais de recuperação. Melhor ainda é quando se atinge o número mágico dos cinco anos. A taxa de sobrevivência relativa aos cinco anos é a mais utilizada, particularmente em estatísticas sobre o cancro.

Mas o cancro é astuto e, durante o falso período de recuperação, esteve a ganhar forças sob um manto de invisibilidade. Quando regressou estava mais forte.

Volta tudo ao início, mas desta vez com um conhecimento que não se tinha quando tudo aconteceu pela primeira vez. Voltam-se às sessões de quimioterapia e de radioterapia, o cabelo que estava lindo e forte, torna a cair e há que ir buscar as perucas e os lenços que já estavam arrumados numa caixa que não se quer voltar a abrir. As metástases nos ossos e no pulmão foram vencidas, mas as do fígado não. Se o processo foi doloroso e desgastante da primeira vez, este foi consideravelmente pior.

A minha irmã submeteu-se a tudo, foi seguida em centros de referência para o cancro em Portugal, chegou a ir a Espanha para ouvir uma segunda opinião e submeteu-se a um tratamento experimental na Alemanha. A minha irmã fez tudo o que podia, nunca desistiu, mas acredito que todos estes tratamentos, apesar de não a terem salvo, lhe deram tempo de vida. 

Se a minha irmã soubesse o quanto queria ser capaz de a arrancar do meio do caos em que ela se sentia.

Recordo-me do dia em que olhei para a minha irmã e senti que estava diferente. Estávamos a almoçar em casa dos meus pais e senti-me assustada quando olhei para ela e percebi que o seu estado estava a piorar. Todo o meu interior estremeceu, porque era sinónimo de transformação e de que o cancro estava a avançar. A partir desse dia, o corpo da minha irmã foi sofrendo alterações, mas a sua maneira de ser e de estar também mudaram. Ficou mais reservada, deixou de se queixar dos tratamentos que tinha de fazer e continuou a fazê-los como se neles residisse a salvação que tanto ansiava. Deixou de me pedir para lhe dar palavras de apoio e de força como se soubesse que perderam todo e qualquer sentido, tendo em conta o estado em que se encontrava.

Se a minha irmã soubesse o quanto queria ser capaz de a arrancar do meio do caos em que ela se sentia. Era uma mistura de sofrimento, desespero, solidão e impotência. Era frequente estar ao computador com as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto, porque queria que ela vivesse e se salvasse, mas simultaneamente era muito doloroso assistir ao seu sofrimento.

Muitas vezes me interroguei acerca do que ela pensava e sentia. Revolta? Saudade? Injustiça? Medo? Durante quanto tempo mais seria ela capaz de aguentar este calvário? A minha irmã Ana tinha consciência que não ia ver os filhos crescerem e que não ia estar ao lado deles nos seus momentos de vitória nem quando eles precisassem de colo e de mimos.

Porque não me levava antes Deus a mim? A minha irmã tinha filhos e eu não.

A minha mana carregou uma cruz muito pesada e embora a família tenha estado sempre presente, sentíamo-nos muito pequenos e terrivelmente impotentes. Cada um à sua maneira, fizemos tudo o que foi possível para tornar a vida da minha irmã melhor.

Quando estava na cama a desabafar ou a reclamar com Deus, perguntava-Lhe por que razão não podíamos trocar. Porque não me levava antes Deus a mim? A minha irmã tinha filhos e eu não, ela sempre foi mais dependente e eu mais independente. Por que razão se fez tudo o que havia para fazer de tratamentos e nada resultou? Por que raio o corpo da minha querida mana não respondeu no sentido positivo, mas, pelo contrário, cada investida que se fez contra o cancro, tornou-o mais forte? Foram muitos os porquês que ficaram sem resposta.

Num dos dias que a minha irmã veio a minha casa jantar com o marido e os filhos, a certa altura, disse-me: “Não sei como é que vou conseguir aguentar a quimioterapia estando neste estado. Estou tão fraca.” Recordo com pesar a sua expressão. Apesar de estar a falar para mim, era como se, na realidade, estivesse a falar consigo mesma.

Recordo uma conversa que tivemos ao telefone em que me pediu para fazer uma grande festa de aniversário ao Tomé quando ele celebrasse os seus dez anos, porque muito provavelmente ela já não estaria cá para assistir. Estávamos em agosto, o mês em que o meu sobrinho mais novo faz anos e este foi o último aniversário que a Ana celebrou com o filho. Quando ela me fez este pedido, lembro-me de ela dizer que estava no baloiço que tinha no terraço e, nesse dia, não me pediu palavras de conforto nem de apoio. Quando desliguei o telefone, desatei a chorar. A minha mana não conseguiu estar presente quando o Tomé comemorou o seu 10.º aniversário.

Quando deixou de dar aulas, dedicou-se a um projeto pessoal em que fazia peças artesanais.

A Ana era dedicada, generosa, tolerante, perfecionista, criativa, organizada, determinada, corajosa, muito simpática, bem-disposta, dava muita atenção aos pormenores e tinha muito bom gosto. Era uma pessoa com muito nível. Não gostava de dar satisfações pelo seu comportamento e trabalhava melhor sozinha. Era muito afetuosa e emotiva, pelo que deu muito em termos de companheirismo e afeição na amizade e no casamento.

Precisou de ter sempre a família por perto. Estudou na cidade onde morávamos e, quando casou, ficou a morar perto da casa dos meus pais. Exigiu sempre muito de nós, da família, e queria que estivéssemos presentes para a ajudar em tudo. Normalmente, íamos ao encontro das suas necessidades e vontades.

Escolheu uma profissão que lhe permitiu dar-se aos outros, viveu-a apaixonadamente e com dedicação total. Foi professora do primeiro ciclo e foi uma profissional de mão cheia, como se costuma dizer. Assumiu a sua profissão com um sentido de missão muito forte. Os alunos adoravam-na. Fazia trabalhos espetaculares e tinha uma forma original de ensinar.

Quando deixou de dar aulas, dedicou-se a um projeto pessoal em que fazia peças artesanais. Na sua página do Facebook, a Ana escreveu o seguinte: “Uma caixinha de surpresas pronta a ser descoberta em peças de artesanato originais e diferentes, feitas com muita dedicação e carinho.” E era mesmo assim. As peças eram originais, com muito bom gosto e tinham sempre um apontamento pessoal. Nas peças feitas por encomenda, a minha irmã conseguia colocar na peça as características da pessoa que a ia receber. Eu admirava este seu talento, porque não tenho este dom para os trabalhos manuais como ela tinha.

Uma outra característica que eu adorava era a atenção que ela dava aos presentes. Por altura do Natal e dos aniversários, comprávamos as prendas em conjunto, mas eu deixava-a decidir, porque ela encontrava sempre prendas úteis e bonitas. Ao invés da minha irmã, eu sou muito prática nas compras das prendas; ofereço o que me pedem ou dou dinheiro para comprarem o que quiserem ou precisarem. Tenho muitas saudades de receber uma prenda da minha irmã. 

Apesar do desfecho, a Ana optou sempre pela vida e nunca desistiu.

A Ana cuidou sempre da aparência. Foi uma mulher bonita, aparentava ter uma idade mais jovem, andava sempre muito bem arranjada e cheirava muito bem. Era bonita, até mesmo quando estava de pijama e quando se levantava da cama. O aspeto da Ana nunca deixou transparecer o seu verdadeiro estado de saúde.

Esta é a história da minha irmã. Outras podem ser muito diferentes. Apesar do desfecho, a Ana optou sempre pela vida e nunca desistiu. Ao longo da sua vida, viveu situações difíceis e muito desafiantes, que exigiram muito dela. Conseguiu superar todas, com exceção da sua última luta. 

Em momentos como este, temos de estar presentes, mesmo que implique fazermos um esforço significativo na nossa vida pessoal e profissional, mas temos de estar ao lado de quem desesperadamente precisa de mimos, de companhia, de força e de se sentir menos só. Nada mais importa na nossa vida, tudo pode ficar temporariamente parado, mas temos de estar presentes. Mesmo que não peçam, que não queiram dar parte “fraca”, a verdade é que se sentem extremamente frágeis e a necessitarem de força e de mimos. E todos podemos dar apoio e colo.


Nem imaginas o quanto dependo de ti, e como; quando não estás, toda a cor desaparece da minha vida, como água de uma esponja; são momentos em que apenas existo, seca e cheia de pó.

Eis a verdade; mas não ilustra muito bem a minha completa adoração por ti, e o como anseio sentar-me a teu lado, mesmo sem nada dizer, a olhar para ti.

Virginia Woolf (1882-1941), para Vanessa Bell in “Irmãs”, editorial Estampa


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Imagem de Timothy Eberly via Unsplash

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