O meu marido Santiago sempre quis ter um cão, mas devido ao facto de morarmos num apartamento, este desejo parecia impossível de ser concretizado. Ele queria um cão “como deve ser”, como costuma dizer. Segundo o Santiago, apenas os cães de grande porte é que podem ser apelidados de cães, como os pastores alemães, os huskies, e outros do género, e eram estes cães que o Santiago gostava de ter.
Dávamos muitas desculpas para não termos cães.
A minha colega Vânia tem uma particularidade que é a de fazer o que entende, independentemente do que lhe disserem. A Vânia fez sua missão encontrar um cão que se ajustasse à nossa (minha e do Santiago) forma de estar e de viver, apesar dos inúmeros “não” que lhe dei como resposta.
Dávamos muitas desculpas para não termos cães: vivemos num apartamento e não é qualquer cão que pode estar num apartamento (pelo menos, é esta a nossa ideia), sou um tanto ou quanto obcecada com a limpeza, os nossos horários não nos permitem ir à rua com o cão fazer as necessidades várias vezes ao dia e, de preferência, sempre à mesma hora e temos de ter em conta a questão dos pelos. Nenhum dos meus argumentos fez a Vânia desistir.
Falava com o Santiago e a resposta também era negativa quanto à possibilidade de virmos a ter um cão. Não havia nenhum que se adaptasse aos nossos requisitos. Somos esquisitos. Arranjávamos sempre um motivo para não termos um cão. Eu dizia à Vânia que ela podia arranjar um cão, mas o mais provável é que fosse ela a ficar com ele, porque nós certamente não iríamos ficar.
Estávamos a jantar na casa da Vânia quando aparece uma cadela muito pequena enrolada numa manta.
A Vânia convidou-nos para jantar com a desculpa que estava de férias e que precisávamos de colocar a conversa em dia. No dia 17 de março de 2015, eu e o Santiago estávamos a jantar na casa da Vânia quando aparece uma cadela muito pequena enrolada numa manta e era para nós, se assim quiséssemos. Comigo, foi amor à primeira vista. Inicialmente, o Santiago disse que não, mas a pouco e pouco foi-se deixando contagiar com aquele ser tão pequenino e, depois do jantar, trouxemos uma amostra de cão para casa.
Uns dias antes do jantar, a Vânia chegou a enviar fotografias dela com a mãe e os irmãos, mas nós não achámos piada na altura. Dissemos logo que “não” à Vânia e ainda acrescentámos que eles não eram nada bonitos.
Nessa noite, como a cadela não parava de choramingar, o Santiago foi dormir com ela para o sofá. Dormiu aninhada ao colo dele e parou logo de chorar. Na manhã do dia seguinte, estavam os dois a dormir no sofá e com a cadela em cima dele.
É pequena, mas gigante no que toca à sua personalidade.
Inicialmente, demos-lhe o nome de Valquíria. A ideia era atribuir um nome poderoso, já que não tínhamos um cão de grande porte, mas depois achámos que o nome não lhe assentava. A cadela é muito pequenina, precisava de um nome terno, que revelasse a sua natureza. Por isso, escolhemos Beca. Ela aceitou muito bem, pois rapidamente passou a responder por este nome.
A Beca é de raça cruzada de pinscher com chihuahua. É uma cadela de pequeno porte, com pelo curto e liso, focinho empinado e nariz preto. Os olhos, grandes e negros, parecem esbugalhados. Tem umas orelhas grandes, bem separadas entre si, que ficam sempre apontadas para cima parecendo que estão sempre em constante estado de alerta.
A Beca possui um temperamento marcado: é ousada, corajosa, curiosa e muito apegada a nós. Embora pequena, possui o instinto de cão de guarda. É muito leal e inteligente. É o cão ideal para apartamentos. É um excelente cão de companhia. Não se deixem enganar pelo tamanho da Beca, é uma cadela corajosa e destemida, capaz de enfrentar cães muito maiores e é muito protetora em relação a mim e ao Santiago. Por esta razão, não tem ideia do seu tamanho real. É pequena, mas é um cão gigante no que toca à sua personalidade.
A Beca tem uns donos muito obedientes.
Normalmente, estes cães não são os mais adequados quando há crianças, porque apesar de esta raça ser considerada amável e paciente com as crianças, as brincadeiras podem magoar estes cães que têm uma constituição física mais frágil. O relacionamento com os outros cães também requer cuidados porque, como não têm consciência do seu tamanho, não têm qualquer problema em atacar outros cães que os estejam a importunar, o que pode não resultar bem para estes cães mais pequeninos. Também as brincadeiras com os cães maiores têm de ser supervisionadas, porque os podem magoar.
Uma vez estivemos em casa de um casal amigo que tem uma boxer que andava sempre atrás da Beca para brincar, mas a Beca nunca lhe deu muita confiança e, sempre que o Santiago estava com a cadela, a Beca corria para ele e não o deixava estar com a boxer. A certa altura, chegou mesmo a virar-se contra ela, ladrou-lhe e mostrou-lhe os dentes. A sorte da Beca foi que a boxer queria brincadeira e não deu importância ao seu comportamento.
Adaptamos a nossa vida tendo em conta as necessidades da nossa cadela.
Não é uma cadela sociável. Gosta de estar comigo e com o Santiago e não gosta que se metam com ela. Desde que a ignorem, nem se dá conta que está uma cadela presente, mas se começam a falar para ela e a querer tocar-lhe, ela fica agitada. É muito possessiva em relação a nós e às coisas dela. Costumo dizer que ela tem uns donos muito obedientes. Adora mimos, festas e beijinhos. Tem um lado extremamente fofo e terno, mas simultaneamente tem uma rebeldia e uma energia que precisam ser controladas e contrariadas.
Somos inseparáveis. Eu e o Santiago adaptamos a nossa vida tendo em conta as necessidades da nossa cadela. Quanto às férias, vamos apenas para os sítios que aceitam animais. Assumimos o compromisso para com ela, a partir do momento que ela passou a fazer parte das nossas vidas. Temos pela Beca um enorme respeito, muito amor e fazemos tudo ao nosso alcance para que ela seja uma cadela saudável e feliz.
Os animais precisam ser estimados, respeitados e cuidados.
A Beca tem muita sorte por nos ter como responsáveis, mas nós beneficiamos muito da relação que temos com ela.
Os animais precisam ser estimados, respeitados e cuidados. Temos esse dever para com eles. Os cães sentem o nosso estado de espírito, a nossa energia e respondem ao nosso comportamento. Precisamos de os entender e de perceber as suas necessidades. Dão-nos muito mais do que recebem de nós. Não podemos descarregar neles os nossos desapontamentos ou a nossa revolta, mas sim vermos neles a capacidade de nos ajudar a curar por dentro. Precisamos de os educar de uma forma saudável e assertiva.
A Beca faz parte de mim e eu dela. Sinto-me muito grata por a ter na minha vida. Foi, sem dúvida, uma das melhores prendas que me podiam oferecer e é uma bênção para mim. O gesto da Vânia comoveu-me muito e estou-lhe muito grata por não ter desistido.



