Inquietações

Têm sucedido uma série de acontecimentos que, em conjunto com a pandemia da COVID-19, mais parece que o mundo está a desfalecer a um ritmo assustador.

Primeiro, o trágico e lamentável incidente em Beirute que aconteceu esta semana. É devastador ver as imagens de destruição de todo o porto da cidade cheio de escombros, quando ainda há tão pouco tempo estava cheio de vida e de casas de tantas pessoas que ali moravam.

É devastador ver as imagens de destruição de todo o porto da cidade cheio de escombros

Emocionaram-me as imagens que vi na televisão de uma enfermeira que conseguiu salvar três bebés de uma área do Hospital que ficou totalmente destruída, bem como a história de um jovem casal que estava no Hospital com a sua bebé. A mulher referiu que estava a amamentar a criança em casa quando se deu a explosão e que tentou proteger a bebé o melhor possível, mas infelizmente a bebé sofreu ferimentos na cabeça e corre perigo de vida. Impressionou-me muito eles dizerem que, até àquele momento, eram felizes e tinham uma boa vida. Eram um casal jovem, tinham a sua casa, o seu trabalho, tinham sido pais há pouco tempo e referem que, de um momento para outro, a sua vida deu uma volta tão grande que a vida que tinham desapareceu.

É devastador as pessoas verem que tudo aquilo que lutaram para construir e para ter, está feito em escombros. A dor é ainda maior quando se perde alguém ou quando não se sabe do paradeiro dos seus entes queridos. 

É bom que os seus países se unem para ajudar estas pessoas. É o mínimo que se pode fazer para apaziguar esta violência de perda pela qual estão a passar. Ajudar a reconstruir a vida destas pessoas é absolutamente essencial. Mas também é fundamental que sejam apuradas responsabilidades a todos os níveis. Dar justiça a estas pessoas é também o mínimo que se pode fazer por quem perdeu tudo e por quem perdeu a vida de uma forma como esta.

Fico ainda mais chocada quando penso na causa que esteve na origem de todo este trágico evento. Segundo as notícias, desde há seis anos que o ativista de Direitos Humanos Wadih Al-Asmar, o atual diretor alfandegário do Líbano Badri Daher e o seu antecessor Chafic Merhi, recorreram a tribunais de Beirute várias vezes para se tentarem desfazer dos materiais perigosos abrigados no porto. Para além dos materiais representarem um perigo extremo para todos, estavam ainda armazenados em condições climáticas desadequadas. Ainda por cima, o destino do nitrato de amónio era Moçambique e não o Líbano, pelo que as autoridades portuárias reconhecem que nunca deviam ter permitido que os químicos fossem descarregados no porto.

Este desastre aconteceu numa fase muito frágil para o Líbano, que vive uma crise económica, divisões internas e tem de lidar com os danos provocados pela pandemia.

Parece que é obrigatório as florestas começarem a arder quando o verão chega. É uma coisa do tipo “Está aberta a época dos incêndios”.

O segundo acontecimento que me causa ansiedade são os incêndios. Já não consigo ouvir falar dos incêndios. Todos os anos é sempre a mesma conversa. Não sei como é que ainda há espaços verdes para arderem. Parece que é obrigatório as florestas começarem a arder quando o verão chega. É uma coisa do tipo “Está aberta a época dos incêndios”. Todos os envolvidos nos incêndios não deviam ser presos, mas uma vez que gostam de ver a Natureza a arder, seja por motivos de interesses ou simplesmente por pancada, então a sua pena devia de ser verem os bens que mais prezam serem destruídos pelo fogo.

A quantidade de construções é algo que também me tem incomodado. Parece que basta haver um buraco para que nasça logo ali um prédio, mesmo que em frente já existam outros edifícios. Em vez de construírem tantos prédios e moradias, por que razão não investem em mais espaços verdes? Em espaços para as pessoas passearem, praticarem atividades lúdicas e as crianças brincarem? Em espaços destinados aos animais? Gostava de ver mais jardins e não mais prédios. Gostava de ver espaços livres e não tudo cheio de prédios. Há tantos prédios por reconstruir e que estão a cair aos pedaços.

Basta haver um buraco para que nasça logo ali um prédio.

Ultimamente, tenho feito algumas caminhadas e aborrece-me o estado em que as ruas se encontram. Tenho que estar sempre a olhar para o chão em vez de olhar em frente ou para o céu. Detesto ver lixo no chão. Quando tenho lixo e não tenho nenhum caixote à mão, guardo o lixo comigo até encontrar um caixote. Não gosto nada de encontrar plásticos, máscaras, luvas, … como se a rua fosse o caixote do lixo. Também detesto ver dejetos de animais no chão. Tenho uma cadela que, independentemente do sítio para onde a levo, vou sempre com um saco que contém uma garrafa com água e detergente para limpar o xixi, toalhitas e sacos do lixo para apanhar os dejetos. Faz-me muita confusão ver as pessoas a passear com os animais em sítios onde outras pessoas fazem caminhadas e não levam nada para limpar. Os animais não têm a culpa, mas os donos têm falta de civismo. 

Confesso que tenho períodos em que sinto pouca esperança e fé na humanidade. Acho que há uma enorme falta de liderança em níveis da sociedade que são preocupantes e há uma assustadora falta de valores, na medida em que as pessoas não têm respeito pela Natureza nem pelos animais e são incapazes de se colocar no lugar dos outros. Amo ver situações em que há entreajuda e adoro finais felizes. Confesso que, por vezes, acho que a humanidade é pouco digna de todo o bem que tem à sua disposição e que opta por dar cabo de tudo.

Confesso que tenho períodos em que sinto pouca esperança e fé na humanidade.

Sinta-se grato por tudo o que tem na sua vida e pelas pessoas boas que verdadeiramente gostam de si. Seja capaz de olhar para as bênçãos que a vida lhe tem proporcionado e lute de forma honesta pelo que quer alcançar. Não perca tempo com futilidades. Cuide bem de si, dos outros, dos animais e do planeta. Um dia teremos de prestar contas do que andámos por aqui a fazer e, nessa altura, não há desculpas, porque na terra da verdade a nossa natureza é exposta tal como verdadeiramente é.


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Imagens de Eric Ward, chris ganser, Tiago Aleixo, Pedro Santos via Unsplash

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