As irmãs e os irmãos são tão próximos como os pés e as mãos.
Provérbio vietnamita em “Irmãs” da Editorial Estampa
A 31 de maio assinalou-se o Dia dos Irmãos. Esta data foi assinalada pela terceira vez em Portugal. É uma forma de lembrar aqueles com quem crescemos em família, de recordar as experiências vividas em conjunto e de viajarmos no tempo através das nossas memórias.
Hoje, é também o dia em que o meu irmão comemora 46 anos.
Eu sou a terceira e a mais nova dos meus irmãos. A minha irmã era a mais velha e o meu irmão, o do meio. Entre mim e os meus irmãos há uma diferença de sete e de quatro anos, respetivamente.
Os meus irmãos eram (…) pessoas que davam nas vistas, pela sua beleza e sociabilidade. Eu, pelo contrário, só com a idade é que acabei por me tornar diferente, com uma beleza refinada.
A minha relação com os meus irmãos foi-se tornando mais próxima à medida que fomos crescendo. Quando éramos pequenos, a diferença de idades que existia entre nós tinha um efeito mais acentuado do que quando nos tornámos adultos. A proximidade com a minha irmã foi mais acentuada quando ela adoeceu e foi maior com o meu irmão durante a minha infância.
Os meus irmãos eram muito bonitos e vestiram-se sempre muito bem. Eram pessoas que davam nas vistas, pela sua beleza e sociabilidade. Eu, pelo contrário, só com a idade é que acabei por me tornar diferente, com uma beleza refinada.
Quando era criança era bonita, mas quando entrei na adolescência, tinha um cabelo muito rebelde, muito volumoso e usava uns óculos tipo fundo de garrafa, dada a graduação das lentes. Cheguei também a usar aparelho nos dentes. Tinha, por isso, o pacote completo. Quando olho para as fotografias farto-me de rir, porque, de facto, tinha uma figura muito característica, mas à medida que os anos têm passado, a minha figura tem-se alterado e acho que tenho uma beleza muito própria.
A minha irmã e o meu irmão tinham muitos amigos e pretendentes. Eu era o contrário. Tinha mais maturidade, sensibilidade e sentido de responsabilidade que os meus irmãos. Acho que fui sempre muito crescida e não tinha os interesses típicos da minha idade. Gostava de estar recolhida no meu mundo e não tinha paciência para pessoas ou conversas fúteis. Gostava de me relacionar com pessoas mais velhas, pois não me identificava com as pessoas da minha idade ou mais novas.
Acredito que a minha irmã só me começou a dar o devido valor já na idade adulta e quando adoeceu.
Quando a minha mãe comunicou que estava grávida, a notícia não foi propriamente bem recebida por parte dos meus irmãos, em especial pela minha irmã. Já havia um casal e eu estava a mais. Não fui planeada, os meus pais achavam que não iam ter mais filhos, até que eu decidi aparecer.
Os meus irmãos nasceram em Luanda e eu nasci em Portugal. Por altura da Guerra do Ultramar, os meus pais tiveram de regressar a Portugal, mas não foi possível virem todos juntos e na mesma altura. Os meus irmãos regressaram mais cedo de Angola. A minha irmã ficou com os meus avós maternos e o meu irmão com os meus avós paternos. Só conheci a minha avó materna. Quando eu nasci, a família estava toda instalada e reunida.
Na altura, a minha mãe era cabeleireira e a minha irmã tinha de a ajudar no salão e ainda tomar conta de mim. Tarefa que, sempre que podia, passava para uma das minhas primas que também não tinha muita vontade em ficar a tomar conta de uma bebé quando podia estar a brincar com os outros miúdos.
Por ser a primeira, a minha irmã foi o centro das atenções, e continuou a sê-lo pela vida fora. Foi sempre muito senhora de si e de fazer o que queria. Acredito que a minha irmã só me começou a dar o devido valor já na idade adulta e quando adoeceu.
Apesar de termos uma boa relação, havia sempre algumas coisas com que implicávamos uma com a outra. Recordo que, quando éramos pequenas, arrumávamos a cozinha de forma alternada ou, melhor dizendo, era suposto ser de forma alternada, mas se a minha irmã não queria lavar a louça, não o fazia e os meus pais também não a contrariavam. Quem é que acabava por arrumar a cozinha? Eu, claro.
Os meus pais contam que a minha irmã foi um pesadelo para comer e para dormir. Para ela adormecer, chegavam a dar voltas de carro à noite ou colocavam-na em cima do peito e faziam-lhe bichinho. O problema era quando ela acordava, depois de a tirarem do carro ou quando paravam de lhe fazer bichinho, e ela berrava e voltavam ao ponto de partida.
Falávamos muito os três à noite sobre os nossos pais, os namorados, os pretendentes, a escola, situações particulares da vida de cada um. Eu adorava ouvir os meus irmãos e experimentava um sentimento de pertença em relação àqueles momentos.
Quando éramos pequenas, partilhávamos o quarto, embora cada uma tinha a sua cama. Adorávamos o bichinho. Para quem não sabe, fazer bichinho consiste em passar lentamente os dedos das mãos pelo corpo e é uma sensação fantástica. Nós gostávamos muito das costas e da zona da barriga. Como ambas adorávamos o bichinho, íamos alternando. Num dia fazia-me ela a mim e, no dia seguinte, eu fazia-lhe a ela. Ouvíamos imensa rádio. Adorávamos ouvir o programa da RFM “Oceano Pacífico” e adormecíamos ao som deste programa. Conversávamos muito uma com a outra à noite. Eu adorava as nossas conversas.
Sempre que podia usava o perfume da minha irmã quando ela não via. Adorava o cheiro dos perfumes que ela comprava. Um dos perfumes que a minha irmã usou chama-se “Don Algodon” e quando encontrei este perfume anos mais tarde, comprei e guardei, porque ele faz-me lembrar a minha irmã e a nossa infância.
Eu acompanhava muito a minha irmã. Sempre que podia, ia com ela até à escola onde ela dava aulas e ficava a assistir às aulas. A minha irmã foi professora do primeiro ciclo e os alunos adoravam-na. Ela era uma excelente profissional, acredito que nasceu mesmo para ensinar os mais pequeninos. Outras vezes, íamos simplesmente dar voltas pela cidade, às compras ou arranjar o cabelo.
Numa das vezes que fui sair com a minha irmã chegámos a ficar sem gasolina no carro. Numa outra vez em que a minha irmã ia a conduzir, e não sei o que aconteceu, foi tão repentino, que quando demos por nós, estávamos com o carro num campo cheio de ervas. Estávamos bem, olhámos uma para a outra e rimo-nos tanto, mas tanto, que ainda hoje quando passo por esse campo que fica a caminho da casa dos meus pais, lembro-me deste episódio e sinto vontade de rir.
Quando somos pequenos, tudo é simples. À medida que vamos crescendo, as relações acabam por ganhar uma complexidade que torna difícil manter aquela simplicidade e ingenuidade típicas da infância.
Também tenho recordações muito engraçadas de quando comecei a conduzir, pois não sabia conduzir. Era um autêntico perigo. Uma das vezes que fui com a minha irmã à escola onde ela dava aulas, levei eu o carro, e tive de ultrapassar uma mota já muito antiga e que fazia imenso barulho. Só me recordo do tempo que demorei a fazer a ultrapassagem e do quanto nos fartámos de rir. Até o condutor da mota olhava para nós com admiração. Um aspeto positivo foi que a minha irmã sempre me incentivou a conduzir e acompanhou-me muitas vezes.
Já que estou numa de contar histórias de condução, com o meu irmão também tenho uma muito boa. O meu irmão também teve o privilégio de apanhar sustos valentes comigo. Numa viagem muito curtinha, desde a casa dos meus pais até ao supermercado, o meu irmão experimentou uma autêntica viagem de Fórmula 1, como ele costuma dizer. Para além de conduzir a uma velocidade excessiva dentro da localidade, num cruzamento acelerei em vez de travar, porque confundi os pedais e, para finalizar a nossa viagem, fiz uma autêntica razia ao muro da minha mãe e fiz tudo isto com a maior das naturalidades e sem qualquer tipo de medo ou pânico. Entretanto, o meu irmão estava com as duas mãos bem agarradas ao banco e, quando saiu do carro, estava pálido e só sabia dizer que nunca mais se metia no carro comigo.
Convém referir que, entretanto, aprendi a conduzir devidamente, mas valeu a pena, só para ter estas recordações.
Com o meu irmão também me diverti bastante. Brincávamos imenso, com carros, a jogar à bola, a andar de bicicleta. Adorava lutar com o meu irmão. Acabava por brincar ao que ele gostava, porque para mim bastava saber que me estava a divertir com ele.
Adorava fazer parte da vida dos meus irmãos e ser capaz de ter uma relação de cumplicidade com eles. Infelizmente, a minha irmã já não está no meio de nós e o meu irmão tem uma vida demasiado complicada para eu entender e me envolver.
Com frequência, ele ia ter connosco ao quarto para conversarmos à noite. Falávamos muito os três à noite sobre os nossos pais, os namorados, os pretendentes, a escola, situações particulares da vida de cada um. Eu adorava ouvir os meus irmãos e experimentava um sentimento de pertença em relação àqueles momentos. No meu diário, tenho uma passagem muito interessante em que, numa das nossas conversas, o meu irmão nos contou a sua primeira experiência sexual.
Esta cumplicidade existia dentro de casa, quando estávamos juntos, mas depois quando eles estavam com os amigos, ficavam mais distantes de mim. Eu compreendo, mas lamento, porque gostava de ter aproveitado melhor os tempos do secundário, em que eu e o meu irmão andámos na mesma escola, mas ele não me ligava nenhuma. O meu irmão pertencia ao grupo dos “grandes”, como eu lhe chamava, dos que estavam no 12º ano. Ele só vinha ter comigo para me pedir para comprar o jornal “Blitz” ou uma cera para o cabelo que gostava muito de usar. Nunca fiz parte do grupo dele.
Quando somos pequenos, tudo é simples. À medida que vamos crescendo, as relações acabam por ganhar uma complexidade que torna difícil manter aquela simplicidade e ingenuidade típicas da infância.
Adorava fazer parte da vida dos meus irmãos e ser capaz de ter uma relação de cumplicidade com eles. Infelizmente, a minha irmã já não está no meio de nós e o meu irmão tem uma vida demasiado complicada para eu entender e me envolver.
Quando assisto àqueles queixumes típicos entre irmãos por causa de questões sem importância, penso que estão a desperdiçar algo de precioso. É tão bom quando os irmãos se apoiam, são próximos, mantêm um relacionamento saudável, independentemente das discussões ou das divergências de opinião.
Hoje, tire um bocadinho do seu tempo e recorde os seus irmãos. Não desgastem a vossa relação com temas sem importância. Faça as pazes com os seus irmãos. Diga-lhes o quanto gosta deles.
Partilhámos. Pais. Lar. Cãezinhos e gatinhos. Festas. Catástrofes. Segredos. E os fios da nossa experiência estão tão entretecidos que nos unirão para sempre. Nunca estarei completamente só, sabendo que existes. Preciso de notícias tuas. Preciso de saber que estás bem. Preciso de ti.
Pam Brown, n. 1928 em “Irmãs” da Editorial Estampa




