Hoje é um dia de homenagem e gratidão a todas as mães.
Devemos a sua comemoração a Anna Reese Jarvis que, em 1907, lançou um movimento para criar o “Dia Nacional das Mães”, tendo a primeira celebração ocorrido no aniversário da morte da sua própria mãe. Nos anos seguintes, o Dia Nacional das Mães era celebrado por todo o estado de Filadélfia. Quatro anos após o início da campanha de Anna Jarvis, o Dia da Mãe era comemorado em toda a América. Depois, espalhou-se pelo mundo.
Esta é uma data muito pessoal. A forma como é vivida depende das recordações e dos sentimentos que os filhos têm em relação às suas mães.
A minha mãe chama-se Maria e tem 71 anos. Devido ao estado de emergência em que nos encontramos por causa do novo coronavírus, não vou poder estar fisicamente com ela.
Os meus irmãos nasceram em Luanda e eu nasci em Portugal.
Por altura da Guerra do Ultramar, os meus pais tiveram que regressar a Portugal e começar tudo de novo. Foi uma época deveras difícil. As pessoas não vieram para Portugal por vontade própria, mas porque deixaram de estar em segurança naquele que consideravam ser o seu país. Os meus pais tiveram que deixar para trás a vida que tinham, os seus amigos, a sua casa, o seu trabalho, … tudo! E não conseguiram trazer todos os seus bens. Imagina o que é passar por esta situação?
A minha mãe costuma dizer que só conheceu o racismo aqui em Portugal e que as relações com as pessoas eram muito diferentes. Em Luanda, todos falavam entre si, todos se relacionavam e as casas eram portas abertas entre os vizinhos. O meu pai ficou preso a esta época, em que se sentiu verdadeiramente feliz, e não foi capaz de se adaptar a todas as mudanças que a vida para Portugal acarretou.
Esta é uma data muito pessoal. A forma como é vivida depende das recordações e dos sentimentos que os filhos têm em relação às suas mães.
Admiro tudo o que a minha mãe construiu, a sua força e determinação. Foi sempre uma mulher de trabalho. Começou como cabeleireira, o salão era na nossa casa, mas depois surgiu uma oportunidade na área das vendas. Foi uma mudança significativa, mas positiva, pois obteve um sucesso profissional extraordinário. Não tem formação superior nem sabe falar outras línguas, mas conhecia bem o negócio e as pessoas. Foi o trabalho ideal para ela. Teve inúmeros reconhecimentos nacionais e internacionais e é uma referência na sua área. O mérito é somente dela, não houve cunhas nem favores.
O meu pai não conseguiu acompanhar o sucesso profissional da minha mãe. Os meus irmãos cobraram à minha mãe as suas ausências, mas eu não. Aceitei a escolha que ela fez. Todas as escolhas têm consequências e, seja qual for o caminho, há vantagens e desvantagens. Acho que a minha mãe tomou a decisão certa.
Considero que é errado quando dizem que os pais gostam dos filhos de igual modo e que ajudam os filhos também de igual forma. Cada filho tem a sua própria personalidade, pelo que é perfeitamente normal que os pais se identifiquem mais com um filho do que com o outro. Por outro lado, os filhos têm necessidades diferentes, pelo que se deve ajudar os filhos naquilo que precisam.
Não há nada de errado em se gostar mais de um filho que de outro ou em ajudar mais um que outro. Não me lembro de sentir ciúmes ou inveja dos meus irmãos por sugarem a minha mãe para eles. Talvez por achar que essa característica os tenha tornado pessoas dependentes, enquanto eu acabei por me tornar mais independente.
Com os terceiros filhos, os pais são muito mais relaxados e não estamos tanto no seu radar. Se forem bem-comportados, como eu fui, quase que nos tornamos invisíveis e a educação entra numa espécie de piloto automático.
A minha mãe tinha um trabalho muito exigente. Faltou a muitos dos meus aniversários por estar em viagem.
A minha avó e a afilhada da minha avó, que veio de Angola com os meus pais, tiveram um papel muito importante na minha educação. Foram as pessoas que estiveram sempre comigo e que cuidaram de mim.
Como referi, a minha mãe tinha um trabalho muito exigente. Faltou a muitos dos meus aniversários por estar em viagem. Recordo de deixar os testes em cima da mesa da cozinha para assinar, porque à hora que a minha mãe chegava eu estava a dormir e, quando eu saía de manhã para a escola, ela estava a dormir. A minha mãe não me ajudou a fazer os trabalhos de casa nem ia à escola saber informações ou tratar das matrículas. Regra geral, a minha irmã é que ia comigo à escola para me matricular. Perdi a conta à quantidade de vezes que fiquei à espera que me fossem buscar à escola ou à explicação, porque os meus pais atrasavam-se ou esqueciam-se e, na altura, não havia telemóveis. Nós morávamos numa aldeia e, a partir do segundo ciclo, eu tinha de ir de autocarro para a escola ou para alguma atividade extracurricular. Houve uma série de atividades que gostaria de ter frequentado e não tive oportunidade, na medida em que o horário dos autocarros era muito limitado e os meus pais nem sempre me podiam ir buscar e levar. Não tive uma mãe tradicional em muitos aspetos, mas não me importo. Nos primeiros três anos do primeiro ciclo, fugi da escola, porque queria ir para casa. Era uma forma de chamar a atenção da minha mãe. A minha avó acabava por me “devolver” à escola e levava um saco de laranjas da nossa laranjeira para oferecer à minha professora.
Graças à minha mãe, tive a oportunidade de conhecer destinos fantásticos.
Claro que também tenho recordações muito bonitas. Lembro-me de falar muito com a minha mãe e de lhe dar toneladas de mimos. Recordo as inúmeras horas de viagem que fiz com a minha mãe quando ela ia em trabalho e, sempre que podia, acompanhava-a. Graças à minha mãe, tive a oportunidade de conhecer destinos fantásticos, como a Tailândia, o Brasil, a Tunísia, as Caraíbas, Marrocos, a Madeira e os Açores. Por causa da minha mãe, os relógios tornaram-se uma paixão para mim, devido ao facto de me oferecer relógios quando vinha de alguma viagem. Ajudei imenso a minha mãe no trabalho dela. Apesar de ser um trabalho muito exigente e que implicava uma grande dedicação, tinha a vantagem de toda a família se poder envolver. Admiro a minha mãe por ter sempre cuidado da minha avó. Quando a minha avó adoeceu, contratou uma senhora que tomava conta dela e da casa e nunca a colocou em nenhum lar. A minha avó teve o privilégio de morrer em casa, na sua cama, com os seus três netos ao lado dela, a minha mãe, o meu pai e a minha tia.
Durante muitos anos, mesmo na idade adulta, procurei desesperadamente pela atenção e aprovação da minha mãe, até que um dia percebi que me estava a prejudicar e a impedir de crescer interiormente. Quando procuramos a aprovação dos outros, esquecemo-nos de pensar por nós e em nós. Usei as roupas que a minha mãe dizia que me ficavam bem, comprei para a minha casa aquilo que a minha mãe gostava, cedi a todas as vontades da minha mãe e deixei de existir. Coloquei sempre a minha mãe num pedestal e estive sempre tão preocupada em agradar à minha mãe, que me anulei por completo. E quando percebi que, independentemente do que fizesse, nunca seria a escolhida, senti uma necessidade de cortar o cordão umbilical e, quando o fiz, senti uma espécie de liberdade, mas também a necessidade de compensar o tempo perdido relativamente aos meus gostos, às minhas opiniões e vontades, porque, na realidade, não sabia quais eram e tive de as descobrir.
Arrependi-me de todas as tentativas que fiz de partilhar assuntos mais pessoais com a minha mãe.
Num dos meus aniversários que celebrei na minha casa com a minha família e alguns amigos, já em idade adulta, a minha mãe passou o tempo todo a falar das traquinices do meu irmão e das preocupações que ele lhe deu, a minha irmã passou o tempo todo a dar-me ordens e eu senti que, embora aquele fosse o meu aniversário, o meu dia, eu era mais uma pessoa que ali estava presente. Eu era invisível para a minha família.
Arrependi-me de todas as tentativas que fiz de partilhar assuntos mais pessoais com a minha mãe, porque não dava importância ou deitava-me logo abaixo. Percebi que, com a minha mãe não posso contar as minhas preocupações nem posso recorrer a ela quando preciso de ânimo.
Com o tempo, a relação com a minha mãe mudou, porque eu mudei a forma como a sinto. Aceito a minha mãe tal como ela é. Acabei por me reconciliar interiormente com ela. Aceito a relação que temos. Posso contar com ela para aspetos mais práticos da vida. Percebo que podemos ter opiniões e maneiras de ver a realidade diferentes, porque somos pessoas diferentes, e eu preciso de viver a minha vida à minha maneira e não à maneira dela.
Os meus irmãos sempre precisaram muito dela, por razões diferentes, e sempre cobraram muito a sua ausência. Contudo, é apenas comigo que ela pode contar.
Da mesma forma como eu tenho dificuldade em me identificar com a minha família, entendo que a minha mãe não deve saber muito bem como lidar comigo. Os meus irmãos sempre precisaram muito dela, por razões diferentes, e sempre cobraram muito a sua ausência. Contudo, é apenas comigo que ela pode contar.
Resolva todos os ressentimentos que tenha em relação à sua mãe. Ela teve muita influência na sua infância e na pessoa que se tornou, mas o poder de transformar o ressentimento ou alguma mágoa em sentimentos positivos, só depende de si. Não fique preso ao que aconteceu. Liberte-se do que o magoa para que possa ficar em paz.
Celebre o dia da sua mãe. Dê uns miminhos extra à sua mãe, se a tem junto de si, e se não tem, encontre maneiras criativas de o fazer. Para as mães que já partiram, recorde momentos que tenham passado juntos e tenha uma vela acesa em sua homenagem. Um beijinho a todas as mães que dão o seu melhor para a felicidade dos filhos. Feliz Dia da Mãe.
Ser mãe é, antes de tudo, uma questão de escolha. Não se limita nem é definido pelo gerar. É amar, é exercer esse amor com consciência, sem se amedrontar pela imensa responsabilidade que se apresenta. É ter nos braços um ser que se ama tanto que parece que o coração vai explodir e, mesmo assim, deixá-lo ir viver a vida por conta própria. É a mensagem suprema de fé em tempos melhores. Feliz Dia das Mães!
Mensagens com Amor



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