Hoje celebramos a Sexta-Feira Santa, a data que assinala o julgamento, a crucificação, a morte e o enterro de Jesus Cristo. É, por isso, uma data triste para os cristãos. Independentemente da crença religiosa de cada um, há que admirar este ser humano extraordinário. Jesus Cristo foi um homem muito à frente do seu tempo e, atrevo-me a dizer, muito à frente de qualquer tempo, tendo deixado um legado inestimável, que devemos cuidar e partilhar, cada um à sua maneira.
Nesta Páscoa muitos de nós, como é o meu caso, não vamos poder estar reunidos com os nossos entes mais queridos. Normalmente, a Páscoa é passada em casa dos meus pais. O almoço de Domingo de Páscoa reúne todos à volta da mesa. Os meus pais, os meus sobrinhos, eu, o meu marido, o meu irmão e o meu cunhado são presenças assíduas. Com o tempo, infelizmente, o número de pessoas à mesa vai ficando mais reduzido. Primeiro, foi a morte da minha sogra, depois da minha irmã, o pai do Santiago voltou a casar e o meu irmão separou-se. Estas pessoas que desaparecem das nossas vidas deixam lugares vazios à mesa e saudades de um tempo que não volta mais.
Nesta Páscoa muitos de nós, como é o meu caso, não vamos poder estar reunidos com os nossos entes mais queridos.
Hoje é um dia de pesar, não só pela data em si, mas pelo que está a acontecer no mundo com o novo coronavírus. Hoje, temos de reservar uns momentos do nosso dia para refletirmos no que se passa no mundo e, em particular, no nosso país.
É preciso recordarmos as pessoas que já não estão connosco e lembrar também que a COVID-19 já provocou a morte a 100 mil pessoas no mundo. É preciso homenagear os mortos, mas também recordar os milhares de pessoas que passaram pela experiência dolorosa de perder os seus entes queridos, muitos dos quais, não tiveram tempo de se despedir nem de assistir ao funeral. Estas pessoas tinham as suas vidas e são vidas que desapareceram e não voltam mais. Eram pais, filhos, avós, netos, sobrinhos, amigos, …. Podíamos ser nós ou alguém próximo de nós.
Nesta Páscoa há famílias que vão estar separadas e outras que têm a possibilidade de estar juntas. Há pessoas que vão estar a trabalhar e outras que estão completamente sozinhas. Aproveite esta época da Páscoa para falar com um amigo ou um familiar com quem já não fala há muito tempo. Faça o seu almoço da Páscoa em simultâneo com outros que estão longe e falem por videochamada. O importante é que assinale esta época.
Hoje, temos de reservar uns momentos do nosso dia para refletirmos no que se passa no mundo e, em particular, no nosso país.
A minha mãe está triste por no Domingo ter a mesa vazia e não ter a trabalheira habitual com os tachos e as panelas e o cabrito feito de duas formas diferentes para agradar a todos. A Marta, uma amiga, está triste, porque vai passar a Páscoa sozinha, porque o companheiro está com a mãe e os pais dela estão em Leiria. É verdade que custa, mas temos que fazer um esforço e sentirmo-nos gratos por nos termos uns aos outros e estarmos bem.
Sem ter essa consciência, o novo coronavírus está a dar um sentido diferente à vida de cada um de nós e às relações que temos. Cabe a cada um analisar a importância das coisas e das pessoas que estão distantes ou ausentes nesta fase e o sentido e a direção que a vida está a tomar. Às vezes, temos dificuldade em tomar decisões e ver o que é melhor para nós e precisamos de grandes abanões como este para passarmos a um estado seguinte.
Apesar de ser tradição as famílias reunirem-se nesta época, estamos numa fase em que precisamos de estar distantes uns dos outros para vencermos a pandemia que assola o mundo, mas isso não significa que não pensemos nas pessoas que estimamos e das quais sentimos saudades. Viva a sua Páscoa em segurança e com saúde para que, brevemente, se possa reunir com as pessoas que sente falta.
Existem pessoas que não vemos todos os dias, mas amamos todas as horas.
Leila Perci



Imagens de Dylan McLeod e Bruno van der Kraan via Unsplash
