Coronavírus: o vírus que está a mudar o mundo

A 31 de dezembro de 2019, a China reportou à Organização Mundial da Saúde (OMS) um cluster de pneumonia de etiologia desconhecida em trabalhadores e frequentadores de um mercado de peixe, mariscos vivos e aves na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China. A 9 de janeiro de 2020, as autoridades chinesas identificaram um novo vírus da família dos coronavírus (2019-nCoV) como agente causador da doença. 

COVID-19 é o nome oficial, atribuído pela OMS, à doença provocada pelo novo coronavírus (SARS-COV-2), que pode causar infeção respiratória grave, designadamente pneumonia. A OMS decidiu atribuir um nome que fosse fácil de transmitir e que não indicasse nenhuma localização geográfica, um animal ou grupo de pessoas. O nome, COVID-19, resulta das palavras “corona”, “vírus” e “doença” com indicação do ano em que surgiu (2019).

E parece que perante os números de pessoas infetadas e mortas espalhadas por 195 países, há ainda quem ache que tudo isto não é importante e não deve ser levado a sério.

Devido ao impacto potencial dos surtos por COVID-19 ser elevado e de ser muito provável a propagação global do vírus, o Comité de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional declarou a situação como Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional, a 30 de janeiro de 2020.

Desde janeiro até agora, o novo coronavírus atingiu o mundo de uma forma absolutamente avassaladora e assustadora. E parece que perante os números de pessoas infetadas e mortas espalhadas por 195 países, há ainda quem ache que tudo isto não é importante e não deve ser levado a sério.

Sou profissional da saúde há 18 anos numa instituição hospitalar. Esta semana, uma utente perguntava-me se eu estava “tranquila perante a situação”, ao que eu respondi que “não”. Pareceu-me surpreendida com a minha resposta, talvez por eu ser uma pessoa extremamente serena. Expliquei-lhe que não podemos estar em pânico, porque o medo leva-nos a tomar decisões erradas, mas que me sentia angustiada com a quantidade de mortes que diariamente ocorrem e tinha respeito por este vírus, devido ao seu impacto e às mudanças que está a provocar em todas as áreas da sociedade. 

Esta semana, uma utente perguntava-me se eu estava “tranquila perante a situação”, ao que eu respondi que “não”

Fico atordoada com a quantidade elevada de mortos por dia. Não há tempo para as pessoas se despedirem. Cada número diz respeito a uma pessoa, com uma história de vida e cuja vida se extinguiu. Não podemos ser indiferentes, apenas porque não conhecemos ninguém que tenha morrido com a doença.

Sinto-me apreensiva com a possibilidade dos profissionais da saúde correrem o risco de não terem o material que necessitam para se protegerem e para prestarem os cuidados de saúde. Fico abalada com as decisões que as equipas hospitalares de países, como as de Itália ou de Espanha, têm de tomar relativamente a quem decidem tratar e quem não recebe cuidados, porque o sistema de saúde está em rutura e os profissionais exaustos e sem meios.

Fico destroçada quando penso nos países pobres que, muito tragicamente, vão ficar na retaguarda.

A indiferença, a desumanidade e a falta de informação assustam-me. Tenho presenciado inúmeras atitudes irresponsáveis e tenho ouvido muitas idiotices. Há pessoas que revelam não estar a ter mais cuidados que aqueles que tinham anteriormente. Há quem diga que todos devíamos ser infetados. Tenho uma colega na casa dos 20 anos que refere que os mais novos não estão muito preocupados se vão ou não ser infetados, porque o vírus ataca os mais velhos e os que têm doenças crónicas. Tem-se assistido à utilização indevida das máscaras e das luvas por parte da população em geral.

Tem-se verificado indiferença por parte de alguns líderes de países afetados, que se recusam a ver o problema tal como ele é. Há países, como os Estados Unidos da América, que estão a deixar milhares de doentes desamparados, porque estes não têm dinheiro, não têm seguro de saúde ou o seguro não cobre os cuidados de saúde que necessitam.

Há pessoas com indicação para estarem em isolamento e outras em quarentena e decidem ir passear, porque estão aborrecidas de estar em casa. Há pessoas sem escrúpulos que são capazes de esquemas fraudulentos, usando a situação dramática que estamos a viver e que se aproveitam dos menos informados e dos mais solitários.

No outro dia, estava na fila para entrar num hipermercado e vi várias pessoas com máscaras e luvas. Um senhor, na casa dos 40-50 anos, depois de ter carregado as suas compras no carro, foi largar a máscara num cesto do lixo, de dimensões reduzidas e aberto de lado, e sem qualquer cuidado na sua colocação. Fiquei furiosa. Quando estava na fila para pagar, vi uma senhora a colocar as compras no saco e com a máscara para baixo, ao nível do queixo. Fiquei irritada. Uns dias mais tarde, fui a um minimercado perto da minha casa comprar pão e a senhora que estava a atender tinha luvas calçadas. Enquanto eu aguardava, atendeu clientes diferentes e agarrou nos produtos, em dinheiro e no multibanco e sempre com a mesma luva. Não trocou de luva nem fez qualquer higienização. As pessoas não entendem que o comportamento delas coloca a vida dos outros em causa. 

Tenho presenciado inúmeras atitudes irresponsáveis e tenho ouvido muitas idiotices.

Podemos ter muitos cuidados, mas não vivemos numa redoma, o que significa que podemos controlar o que fazemos, mas não temos controlo sobre as pessoas que nos rodeiam nem sobre o ambiente em que estamos inseridos.

Esta é uma situação em que aquilo que eu decido fazer ou não fazer, vai ter influência na vida dos outros. Por isso, cada um tem de dar o seu contributo para que se quebre a cadeia de transmissão.

Há pessoas assintomáticas e outras com sintomas ligeiros e que recuperam sem intercorrências, mas o problema é quando colocam em risco pessoas que têm a sua saúde fragilizada. Será que as pessoas conseguem imaginar o efeito deste vírus num jovem transplantado ou com uma doença oncológica? Será que julgam que as possibilidades de recuperação são as mesmas que uma pessoa saudável? Acham que o sistema de saúde, por melhor que seja, consegue suportar uma pandemia como esta?

Não compete a ninguém achar que a sua vida tem mais valor que a vida de outro. Agora, precisamos de desacelerar a nossa vida para conseguirmos chegar bem ao nosso destino.

Situações como a que estamos a viver atualmente, mostram o pior e o melhor de cada ser humano. Revelam a natureza de cada um de nós. Não é uma altura para individualismos ou interesses próprios. É a altura para sermos parte da solução.

Por isso, fico feliz quando tenho conhecimento de medidas e de iniciativas que fazem a diferença na vida das pessoas. É o caso da distribuição de comida, medicamentos e outros bens a quem necessita; a parceria entre as farmácias e os CTT; a forma como os serviços de saúde se estão a organizar para minimizar eventuais idas dos doentes ao hospital mantendo o controlo das suas situações clínicas; a adaptação da produção por parte das empresas para as necessidades do país em equipamentos de proteção individual; a informação educativa nos órgãos de comunicação social; as várias iniciativas ao nível da sociedade civil.

Também é preciso reconhecer o esforço do governo nas várias medidas que tem tomado e nas comunicações que tem realizado. Do caos emergem oportunidades ocultas que transformam positivamente a vida das pessoas.

Os profissionais da saúde têm estado no centro das atenções, mas é preciso lembrar todos os profissionais das outras áreas que continuam a trabalhar para que tudo funcione o melhor e mais normal possível. E lembrar também que, num hospital, não existem só médicos e enfermeiros, mas há todo um conjunto de profissionais de áreas diferentes. Não trabalhamos de forma isolada, mas precisamos uns dos outros e estamos encadeados.

Não tenhamos ilusões. A vida, tal como a conhecemos, nunca mais vai ser a mesma.

Não tenhamos ilusões. A vida, tal como a conhecemos, nunca mais vai ser a mesma. Há a vida antes do coronavírus, a que estamos a viver agora e a vida após o coronavírus. Apesar do mundo estar mergulhado num drama em que a saúde pública está ameaçada e milhares de pessoas estão a morrer, vai-se seguir uma pandemia económica, que vai afetar os países de forma diferente, sendo uns mais prejudicados que outros. Certo é que o mundo mudará de forma significativa em todas as áreas da sociedade. 

Tenho esperança de que o mundo aprenda uma lição valiosa e que desta crise surjam oportunidades que resultem em mudanças positivas. Podem ser novas formas de trabalhar, de ensinar, de aprender ou de prestar cuidados de saúde. Espero que sejam mudanças que tornem os setores da sociedade mais eficazes, com menos custos e mais centrados nas necessidades das pessoas.

Proteja-se a si e aos outros. Confie nas autoridades de saúde e nas suas recomendações.

Deixo aqui alguns links úteis:

Referências:

  • Direção-Geral da Saúde. 2020. Plano Nacional de Preparação e Resposta à Doença por novo coronavírus (COVID-19).
  • Instituto Português do Sangue e da Transplantação. 2020. Circular Normativa nº 001/CN-IPST, IP/2020 de 06/03/2020. Plano de Contingência para a sustentabilidade e segurança do fornecimento de sangue e componentes sanguíneos durante o surto de COVID-19.

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Imagens de Photo by Wes Hicks, Fusion Medical Animation e Martin Sanchez  via Unsplash

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