Governo lança campanha contra violência no namoro no Dia de São Valentim
Hoje de manhã, a caminho do trabalho, ouvi na rádio que quase 70 % dos jovens desvalorizam comportamentos violentos dentro das relações. Esta foi uma das conclusões do Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro 2019, realizado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) com o apoio da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade.
70% dos jovens desvalorizam comportamentos violentos dentro das relações
Fiquei impressionada com a notícia e fui saber mais sobre o estudo.
Segundo o estudo, 67 % do total de jovens legitimam pelo menos um comportamento de violência de entre os comportamentos questionados e verifica-se uma maior legitimação da violência por parte dos jovens que reportaram algum indicador de vitimização. As investigadoras referem que estes resultados podem ter implicações concretas na vida destes jovens que, tendo sofrido atos de violência no namoro, não reconhecem a violência no namoro e, por isso, não creem precisar de ajuda especializada, o que faz com que as situações continuem a não ser detetadas nem denunciadas. Quanto aos diferentes tipos de legitimação, o tipo de violência mais legitimado é o controlo (27 %), seguido da perseguição (24 %) e da violência sexual (24 %), a violência através das redes sociais (23 %), a violência psicológica (16 %) e, finalmente, a violência física (9 %).
O estudo mostra que os rapazes legitimam mais a violência do que as raparigas, chegando a legitimação da violência a atingir o quádruplo entre os rapazes.
Dos 70 % dos jovens que responderam que tinham ou já tinham tido alguma relação de namoro, 58 % reportou ter vivenciado pelo menos de uma das formas de violência enunciadas no questionário. Dos vários indicadores de violência no namoro estudados, verificou-se que, da totalidade dos jovens, 34 % reporta ter vivenciado situações de violência psicológica, 31 % perseguições, 21 % violência através das redes sociais, 19 % de situações de controlo, 13 % violência sexual e 11 % violência física por parte de um(a) companheiro(a).
Quando comparado com os dados do Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro de 2018, relativamente à vitimização, existe um aumento em todas as formas de violência, sendo que praticamente todas ascendem quase o dobro em 2019. Segundo as investigadoras do estudo, esta maior representação dos indicadores de vitimização em 2019 pode significar que as estratégias de sensibilização e prevenção para o que são relações de namoro saudáveis e não saudáveis devem permanecer como uma prioridade. Relativamente à legitimação, comparando os dados de 2019 com 2018, quatro dos seis indicadores tiveram uma redução (controlo, perseguição, violência sexual e violência através das redes sociais), o que reforça o carácter efetivo das estratégias de prevenção adotadas. O estudo recomenda a necessidade e a urgência de uma intervenção com os jovens, o mais precoce e continuadamente possível, no sentido de prevenir a violência sob todas as formas.
As investigadoras salientam que “não podem desvalorizar-se quaisquer formas de violência, já que estas têm repercussões a vários níveis para os/as jovens; e que desconstruir a normalização/legitimação destes comportamentos será minimizar a probabilidade de jovens se manterem em relações violentas e promover relações pautadas pelo respeito e igualdade.”
O relatório termina com a indicação de que os resultados são importantes para vários intervenientes, como educadores, docentes, pais, mães, encarregados de educação, e para a sociedade em geral, porque nos mostram o panorama real da situação portuguesa relativa à violência no namoro, salientando a necessidade de intervenção a este nível.
Estes jovens vão crescer e, como adultos, vão achar que a violência é normal e aceitável numa relação.
O Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro de 2019 é um estudo representativo, inclui a participação de 4938 jovens de todos os distritos de Portugal Continental e dos arquipélagos dos Açores e da Madeira. As idades dos inquiridos estão compreendidas entre os 11 e os 20 anos, com uma média de idade de 15 anos.
Confesso que fiquei atordoada com este relatório, pela realidade que mostra acerca dos jovens. Estes jovens vão crescer e, como adultos, vão achar que a violência é normal e aceitável numa relação.
O namoro serve para as pessoas se conhecerem de uma forma mais séria e profunda. O namorado deve ser o nosso melhor amigo. Deve ser alguém com quem nos sentimos bem, em quem podemos confiar e com quem nos sentimos à vontade para sermos nós mesmos. Deve ser alguém que nos faz rir, que nos diverte, que nos ajuda a sermos melhores pessoas. Deve ser alguém com quem queremos estar naquele momento. Mas se, entretanto, os sentimentos pelo outro mudarem e a relação terminar, não faz mal, é normal.
O que não é normal nem saudável é numa relação haver qualquer tipo de violência sobre o outro, porque isso é uma forma de traição e de maldade. Pode começar de uma forma muito subtil, como um ataque de ciúme inesperado, uma forma de falar mais agressiva, um comportamento físico mais violento, o querer ter o outro só para si, mas há a tendência para se desculpar e achar que foi um caso isolado. Não se enganem a vocês próprios. Uma pessoa que gosta de nós trata-nos bem e faz-nos sentir bem. Não há nenhuma desculpa que possa ser dada que explique comportamentos agressivos. Se não se sente bem com uma pessoa, abandone a relação. Não pense que a culpa é sua ou que o companheiro vai mudar. Não se iluda.
Só em 2019, a PSP recebeu 2100 denúncias de violência no namoro. A Linha de Atendimento da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, um serviço gratuito de informação às vítimas de violência doméstica, que funciona 24 horas por dia durante todo o ano, registou 465 atendimentos em 2019 (mais 143 situações, em relação a 2018).

Com o objetivo de desconstruir a ideia de que a violência é normal, no Dia dos Namorados, o Governo lança uma campanha com o lema “Namorar não é ser dono”. Trata-se de uma campanha de prevenção e combate à violência no namoro, que procura mostrar que não se deve ter vergonha de denunciar atos de violência.
O Dia dos Namorados celebra-se todos os anos a 14 de fevereiro, tratando-se de uma data que comemora os afetos, em particular, o amor. Todos os dias são bons dias para manifestarmos o apreço e o amor que sentimos uns pelos outros, mas este dia pode ser uma ajuda para os menos expressivos.
O Dia de São Valentim é, acima de tudo, um dia dedicado aos afetos. Por isso, se há alguém que seja especial na sua vida, com quem se sinta bem quando está na sua companhia, que o ajuda a levar a sua vida para a frente, que o anima e que o compreende, então, aproveite este dia para agradecer o facto de essa pessoa fazer parte da sua vida.
Um Dia de São Valentim feliz! Sem violência!
Nunca se afaste de si mesmo para se aproximar de alguém.
Adriano Dambrós
Saiba mais sobre a Campanha do Governo.
Conheça na íntegra o Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro 2019.



Imagem de Hannah Olinger e DESIGNECOLOGIST via Unsplash
