Escrever um diário

Hoje, a Sara (a minha amiga mais antiga) enviou-me uma mensagem com uma fotografia de há 20 anos atrás, quando fomos assistir à Queima das Fitas do curso de enfermagem dela. Foi muito engraçado vermos como éramos há 20 anos atrás. O cabelo, a roupa e o nosso aspeto, tão diferentes de agora. 

Uns minutos mais tarde, recebo outra mensagem com uma fotografia do diário da Sara, em que ela menciona o meu nome a 20/06/1992. Achei tão engraçada a passagem que a Sara me enviou e, claro, minutos depois ligou-me para nos rirmos à gargalhada com as nossas recordações de infância. Estava à procura do passaporte para ir viajar e acabou por encontrar estas preciosidades.

Ainda tenho todos os meus diários. Para além das fotografias, é a única recordação que quis guardar da minha infância.

A Sara não tinha por hábito escrever no diário, ao contrário de mim. Sempre tive diários e sempre adorei escrever. A escrita sempre foi uma das minhas formas de expressão favorita.

Ainda tenho todos os meus diários. Para além das fotografias, é a única recordação que quis guardar da minha infância. Nunca fui de guardar os livros e os cadernos da escola, roupas ou objetos da altura. Não sou de remexer muito no passado nem sinto saudades.

Há um tempo atrás reli os meus diários e adorei! Para além de ter mandado umas boas gargalhadas, fiquei surpreendida com a minha maturidade na altura. Em criança, fui uma adulta em ponto pequeno. Tinha um pensamento, uma consciência do que se passava à minha volta e um sentido de responsabilidade que ia para além da minha idade. Talvez por isso sempre senti dificuldades em me relacionar com as pessoas da minha idade.

Nas linhas dos meus diários reconheço a pessoa que ainda sou hoje: organizada, responsável, trabalhadora, muito exigente comigo, perfecionista e com a capacidade de me sentir feliz com pequenos acontecimentos. 

Quando lemos o diário acabamos por recordar episódios da nossa vida e damos conta do caminho que temos percorrido e do quanto evoluímos.

Achei muito interessante ler sobre os meus sentimentos, os meus pensamentos e a forma como percecionava o que se passava comigo e com quem me relacionava. Sofria imenso quando não tinha boas notas. Tinha a minha mãe num pedestal e fazia de tudo para ter a atenção dela. Conversava imenso com os meus irmãos à noite, particularmente com a minha irmã, porque partilhávamos o quarto. Confidenciei ao meu diário a relação desequilibrada dos meus pais e de como me sentia em relação a eles. Enumerava as prendas que cada pessoa me dava nas épocas festivas. Anotava o dinheiro que ia juntando para comprar alguma coisa que queria. Escrevia sobre as confusões em que o meu irmão se metia e de como afetavam a nossa família. Partilhei com o meu diário a morte da minha avó. Escrevi sobre a minha experiência num lar de idosos, em que fui voluntária nas minhas férias de verão em 1994.  

Quando lemos o diário acabamos por recordar episódios da nossa vida e damos conta do caminho que temos percorrido e do quanto evoluímos.

Pontualmente, é bom recordar estas vivências, porque há situações que acabam por cair no esquecimento e outras aconteceram de uma forma diferente do que recordamos. 

É positivo darmos umas boas gargalhadas das situações que vivemos na nossa infância, mas não é saudável vivermos no passado. O nosso passado influencia muito as pessoas em que nos tornamos, mas não podemos ficar presos nesta linha do tempo. É importante conseguirmos diferenciar as referências do passado que queremos dar continuidade e os padrões que queremos interromper. Há memórias e vivências que convém não recordar.

O diário torna-se o nosso melhor amigo e o nosso confidente.

Nesta viagem ao passado, pus-me a pensar na importância que um diário pode ter na nossa vida. O diário torna-se o nosso melhor amigo e o nosso confidente. Nele somos genuínos. Ali está quem verdadeiramente nós somos. Contém os nossos pensamentos e os nossos sentimentos. Não há farsas. 

Escrever um diário pode ser muito libertador, mas não é uma tarefa fácil. Requer tempo, dedicação e um momento de paragem para olharmos para dentro de nós próprios.

Experimente escrever um diário. Leve a tarefa a sério e compre mesmo um diário. Não pense que não tem nada de empolgante para contar nem dê desculpas para não o fazer. Experimente um mês e, se gostar, estenda por mais um mês e, quando der por isso, vai sentir a necessidade de escrever no seu diário. Não pense muito. Comece por escrever sobre o que lhe apetecer, pode ser sobre o seu dia, ou acerca de alguma situação em particular ou sobre alguém. O que importa é que escreva, sem filtros e sem preocupações. Um diário pode dar-nos uma perspetiva diferente de uma determinada pessoa, vivência, sentimento ou pensamento. Pense nisso.


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Imagem de Hannah Olinger via Unsplash

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