Dia dos Fiéis Defuntos

O Dia dos Fiéis Defuntos é comemorado a 2 de novembro. É também conhecido como o Dia dos Finados, o Dia dos Mortos ou o Dia das Almas. É celebrado em conjunto com o Dia de Todos os Santos, a 1 de novembro. É um dia para recordar todos aqueles que já partiram.

Fui ao cemitério ao final da tarde. O contraste das cores do céu combinado com a pouca luz natural, a temperatura amena, as campas lavadas e enfeitadas com flores e com velas acesas criaram um ambiente de tranquilidade e de bem-estar que não consigo explicar bem. Nunca tinha experimentado esta sensação como neste dia.

Uma das campas que visitei foi a da minha amiga de infância Magda. Toca-me sempre muito estar ali junto da sepultura dela. Olho para a fotografia da Magda e sinto uma tristeza pela sua partida, depois de um grande sofrimento com a leucemia. 

Nunca tinha experimentado esta sensação como neste dia.

Quando éramos crianças, brincávamos muito. A Magda era minha vizinha. O sonho dela era ter uma casa grande, com um quarto só para ela. A Magda vivia numa casa com poucas condições para ela e para os pais e que comunicava com a casa da avó. O pai era construtor e, aos poucos, foi construindo a casa de sonho para a família. A Magda adorava a casa nova, mas usufruiu muito pouco dela. Passado pouco tempo de se ter mudado, adoeceu e num curto espaço de tempo acabou por falecer. Tinha 15 anos.

Ainda me recordo do dia que a vi pela última vez, estava internada no IPO, e nunca me esqueci do sofrimento em que se encontrava. Recordo-me de lhe contar que a minha cadela Boneca tinha tido bebés, mas a Magda não reagiu à minha presença nem às minhas palavras. Era filha única. A sua morte foi um desgosto grande que afetou não só a família, mas toda a aldeia onde morávamos. 

Quando estou ali, junto da campa da Magda, penso sempre como é que ela seria se estivesse viva e que rumo tinha seguido a sua vida. E sinto sempre uma revolta por a vida lhe ter sido tirada numa idade tão jovem, com a vida toda pela frente e depois do seu sonho concretizado. A Magda era uma miúda exemplar. 

Sinto uma espécie de aconchego por saber que as cinzas da minha irmã estão junto dos meus avós.

A última campa a visitar, a mais importante para mim, foi a dos meus avós e da minha mana. Deixei um arranjo de flores para cada um. Por um lado, sinto uma espécie de aconchego por saber que as cinzas da minha irmã estão junto dos meus avós. Dá-me uma certa tranquilidade saber que há algo dela que está ali. Por outro lado, não me consigo habituar à ideia de a minha irmã estar ali. Quando olho para a fotografia dela, não posso deixar de sentir tristeza e indignação, na medida em que não era suposto a minha irmã estar morta. É uma sensação estranha, como se ainda não me tivesse habituado à ideia da sua morte.

Gosto sempre de me sentar num bocadinho da campa e de ficar ali por momentos. Falo com ela, rezo, choro, fico ali a olhar para a fotografia dos três e a sensação de nunca mais poder tocar na minha irmã, sentir a sua pele, cheirá-la, falar com ela, abraçá-la é quase sufocante. 

Acredito que eles sentem mais a nossa falta e que sofrem mais que nós.

Acredito que tenho uma responsabilidade acrescida de viver a minha vida o melhor que for possível e da melhor forma que eu for capaz, pelo facto de haver pessoas, como a minha irmã e a Magda, que partiram em idades jovens e de as suas vidas terem sido interrompidas contra a sua vontade. Por respeito a elas, não tenho o direito de desistir nunca e tenho de tentar sempre, por mais difíceis que os obstáculos possam parecer. Eu tenho a oportunidade de os superar, ao contrário delas. Por isso, acredito que quem continua a viver, assume uma espécie de compromisso ou de responsabilidade perante aqueles que partiram.

A relação com os mortos precisa de tempo e de amadurecer. Acredito que eles sentem mais a nossa falta e que sofrem mais que nós. Acredito que eles nos veem exatamente como somos por dentro. 

Quem é que tem para recordar?

Este é um dia especial para serem recordados, mas é importante não os esquecermos. É preciso lembrar os que morreram. É preciso que continuemos a viver a nossa vida, não a vida deles, mas a nossa, com eles no nosso pensamento e no nosso coração.

Mesmo que não seja um crente, que não reze, que não vá ao cemitério, acredite no sentimento que os unia e na ligação que se criou pelas aventuras que viveram em conjunto. Acredite na mudança que se deu na sua vida, pelo facto de aquela pessoa ter existido e ter feito parte de si. Quem é que tem para recordar?


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Imagem de Echo Grid via Unsplash

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