Cancro da mama tira mais uma vida

O cancro da mama é o cancro mais comum no género feminino a nível mundial, havendo cerca de 1,7 milhões de novos casos todos os anos, representando cerca de 25% de todos os cancros existentes em mulheres.

São vários os fatores que contribuem para que o cancro da mama seja uma das doenças com  maior impacto na sociedade, sobretudo para a mulher: tem uma alta incidência e uma alta mortalidade, corresponde à segunda causa de morte por cancro e agride um órgão carregado de simbolismo intimamente ligado à feminilidade e à maternidade.

A Carla foi uma destas quatro mulheres que não resistiu às complicações do cancro da mama.

Segundo os especialistas, com um diagnóstico precoce e um tratamento adequado, o cancro da mama é curável na maioria das doentes. Neste sentido, é muito importante o autoexame e o reconhecimento das alterações, de forma a atuar o mais cedo possível.

Segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro, em Portugal, todos os anos, são detetados cerca de 6000 novos casos de cancro da mama e 1500 mulheres morrem com esta doença. Com uma população feminina de cerca de 5 milhões, morrem quatro mulheres com esta doença, por dia.

A 11 de julho, a Carla foi uma destas quatro mulheres que não resistiu às complicações do cancro da mama. Foi mais uma perda a lamentar.

Foi através da minha atividade profissional que conheci a Carla. Era do Norte, mas vinha várias vezes à zona centro, o que fazia com que nos encontrássemos. Eu identificava-me de alguma forma com ela, pois era uma pessoa serena, reservada, de confiança, respeitadora, disponível e profissional. Em setembro de 2006 fomos à Suíça assistir a um congresso e tive a oportunidade de conviver com a Carla. Na altura, usava o cabelo muito curto, devido aos tratamentos de quimioterapia que tinham chegado finalmente ao fim.

Ela era uma presença muito forte na vida da família do lado dela e do marido. Deixa um vazio enorme.

O cabelo cresceu e ficou comprido, trabalhava de forma ativa, ultrapassou o período dos cinco anos, vivia a vida da melhor forma possível até que, lamentavelmente, a doença voltou ainda com mais força e, num curto período de tempo, o estado de saúde da Carla agravou-se de tal forma que acabou por sucumbir a 11 de julho deste ano.

Hoje, a Marlene (colega e amiga da Carla) ligou-me para falar sobre um assunto e deu-me a triste notícia. Confesso que foi um choque. Fiquei profundamente triste pela Carla que não merecia morrer, pela família que sofre e pela filha com 14 anos que ficou sem a mãe. A Carla era um apoio para toda a família. A mãe morreu há cerca de cinco anos e, desde essa altura, o pai apoiava-se muito na Carla. O irmão e a cunhada têm duas filhas pequenas e um negócio próprio que os leva a trabalhar ao fim de semana e era a Carla quem ficava com as sobrinhas para que os pais pudessem ir trabalhar. A Carla ajudava muito a família em todos os aspetos, incluindo financeiramente. Ela era uma presença muito forte na vida da família do lado dela e do marido. Deixa um vazio enorme.

Fez parte de uma empresa que, felizmente, sempre a apoiou e a deixou à vontade. É uma das poucas empresas em que as pessoas ainda são uma família e estabelecem relações que vão para além do trabalho. A Carla quis trabalhar o máximo que foi possível, porque optou por se refugiar no trabalho para conseguir lidar com a doença, que não lhe deu tréguas. Apesar de terem consciência da gravidade da doença da Carla, os próprios colegas confessam que foram apanhados desprevenidos, tal foi a rapidez com que o seu estado de saúde se agravou e porque disfarçava muito bem. Para quem a ouvia falar ao telefone não tinha a mínima noção de que a Carla estava presa à vida por uma linha muito ténue.

Sentia uma empatia pela Carla não só pela sua maneira de ser e de estar, mas porque a minha sogra e a minha querida irmã sofreram muito com esta doença maldita e também elas foram vencidas pela doença.

A Marlene refere que parece que ainda não ganhou consciência de que a Carla faleceu. É como se a Carla tivesse ido para algum lado e, a qualquer momento, vai regressar e vão falar e estar juntas como se nada tivesse acontecido. No outro dia, o filho dela magoou-se e o instinto da Marlene foi agarrar no telemóvel para pedir ajuda à Carla, mas rapidamente se apercebeu que não iria ter resposta do outro lado. Ainda fala da Carla como se estivesse viva. É nestes pequenos momentos que vamos sentido e apercebendo que aquela pessoa não está já no meio de nós e essa consciência causa-nos dor, tristeza e saudade. 

Sentia uma empatia pela Carla não só pela sua maneira de ser e de estar, mas porque a minha sogra e a minha querida irmã sofreram muito com esta doença maldita e também elas foram vencidas pela doença. Tanto a Carla como a minha irmã partiram quando estavam na casa dos 40 anos. Para além da tristeza, é inevitável o sentimento de revolta pela injustiça que estas mortes representam, porque as suas vidas foram interrompidas prematuramente e ficaram privadas de acompanharem o crescimento dos seus filhos. As pessoas boas são sempre as que mais sofrem e parece que são as que abandonam este mundo em primeiro lugar.

Tive muita pena de não me ter despedido dela, de não lhe ter dado um beijinho e um abraço, de não lhe ter agradecido o prazer de a ter conhecido. Com a minha sogra e a minha irmã compreendi o quanto é importante despedirmo-nos de alguém cuja vida está presa por um fio extremamente delicado.

Também é importante lembrar todas as mulheres que, felizmente, ultrapassaram a doença. Celebrem a vossa recuperação. Aproveitem muito bem cada dia, pois é uma oportunidade valiosa que receberam e uma dádiva com um valor inestimável. Vivam a vida por vocês, pelos vossos entes queridos e por todos aqueles que lamentavelmente deixaram este mundo.

Esta é a minha forma de me despedir da Carla. 

Minha querida Carla, um abraço de saudade e obrigada por a ter conhecido. Desejo que encontre paz e tenha muita luz na eternidade. 


Para mais informações sobre o cancro da mama, consultar os seguintes links:

Conversas Interiores - Signature - 800x290
Conversas Interiores - Icon - 25x25

Imagens de Giulia Bertelli e Joshua Fuller via Unsplash

Deixe um comentário