A entrada no lar da terceira idade

O lar é um termo afetuoso, contendo uma carga que vai para além da habitação. A terceira idade designa a etapa da vida que se segue à idade adulta. Assim sendo, o lar da terceira idade devia ser, por excelência, um lugar de afetos, de cuidados, de mimos e de um enorme respeito.

Os profissionais que trabalham nos lares deviam ser bem remunerados e escolhidos de forma minuciosa. Infelizmente, não é esta a realidade da maioria. Mas a verdade é que se devia investir nas pessoas que trabalham nos lares para eles próprios serem bons cuidadores, porque afinal estão a lidar com pessoas muito debilitadas fisicamente e/ou psicologicamente, com pessoas que precisam de uma atenção extra, de um cuidado extra e de um enorme respeito pela condição em que se encontram.  

Não deve ser nada fácil, na última etapa da vida, as pessoas terem que deixar as suas casas para passarem a viver num lar.  

A maioria dos idosos fica completamente sozinha, sem nada para fazer, sem nada para passar o tempo e isto é terrível. Muitos são ali despejados. Alguns ainda têm a família a ir visitá-los, mas há quem não tenha ninguém. Parece que ficam esquecidos.

Quando temos uma vida ativa, o tempo passa a correr e ansiamos por ter tempo, mas quando se está num lar, o tempo parece que pára e que se fica à espera do fim.

Quando bem gerido, o dinheiro pode ajudar muito uma pessoa e, nesta fase da vida, pode fazer a diferença entre estar num lar com as devidas condições ou até mesmo ficar em casa, com todo o conforto e apoio que se queira e precise.

Recordo aqui a história da minha vizinha, a D. Fernanda, uma história igual à de muitos outros idosos. A D. Fernanda sempre foi independente e esteve sempre na sua casa até que se viu confrontada com a decisão dos filhos de quererem que ela fosse para um lar para não estar sozinha.

Recordo o dia em que a D. Fernanda foi a casa dos meus pais, entre lágrimas, despedir-se de nós. Os filhos achavam que a D. Fernanda não podia ficar sozinha em casa, sobretudo à noite, uma vez que durante o dia estava no centro de dia, mas regressava a casa ao final da tarde e ficava sozinha à noite.

Pela descrição que a D. Fernanda fez, o lar parecia ser muito bom, mas tinha o coração partido, como seria de esperar. Foi sempre uma senhora muito independente, habituada a ter a sua casa, as suas coisas, a tratar do seu jardim, a cozinhar as suas refeições, mas teve que se separar da sua terra, dos vizinhos que sempre conheceu, das amigas com quem conversava e da sua casa (o seu maior tesouro).

Houve a possibilidade de um dos filhos ficar a tomar conta dela, mas, infelizmente, tal não foi possível, devido a confusões que se instalaram entre eles. Em vez dos filhos se juntarem e ajudarem o irmão que queria ficar a tomar conta da mãe, optaram por colocar a mãe num lar.

A D. Fernanda não era uma pessoa doente nem precisava de cuidados especiais, apenas precisava de não estar sozinha. Estava perfeitamente lúcida e bem em termos da locomoção. Não era melhor se estivesse em casa de um dos filhos? Podia ser bom para todos, mas a opinião da D. Fernanda não foi tida em consideração.

Acho que deve ser muito triste a pessoa trabalhar uma vida inteira para ter a sua casa e os seus bens e, de um momento para o outro, vê-se obrigada a ir para um lar. É algo que lhe é imposto e as pessoas com a idade da D. Fernanda são muito apegadas à casa onde vivem, aos seus pertences, porque é lá que estão as suas memórias e as recordações de uma vida.

A D. Fernanda acabou por se adaptar bem ao lar, arranjou companhia e tratavam bem dela.

Quer queiramos quer não, esta é uma fase que todos devemos pensar e planear com muita antecedência.

Na minha vida profissional conheço muitas pessoas com idade avançada que moram sozinhas. Umas têm animais que são os seus melhores companheiros e que são capazes de não comerem para que não falte comida aos seus animais. Outras têm família, mas estão longe. Outras têm família por perto, mas é como se não tivessem ninguém e, de vez em quando, lá aparece uma ou outra com um familiar ou acompanhada por uma pessoa do lar que se nota ser uma boa profissional.

Sinto sempre uma tristeza quando venho a saber que determinado utente acabou por falecer, como aconteceu com a D. Josefina, uma utente de longa data. Pior ainda, quando morrem completamente na solidão e só dão com eles dias depois, porque há um familiar ou um vizinho que estranha a falta de notícias e dá o alerta, como aconteceu com o Sr. Becker.

A D. Sofia está a tratar de tudo para ir para um lar. Durante um tempo ainda teve uma senhora a ajudá-la em casa, mas a falta de força nas pernas está a agravar-se e estar sozinha à noite pode ser um problema. A vantagem é que está a tratar de tudo. Foi ao lar ver as condições e está a dar uma volta à casa, que está a pensar em alugar para ajudar a pagar o lar. Apesar de referir que o lar tem excelentes condições, está com o coração partido, porque vai ter de deixar a sua casa. Está a dar roupa que já não usa e que estava guardada e a arranjar quem fique com alguns dos seus bens. A D. Sofia referiu que só comprava “do bom e do melhor” e custa muito ter que se separar das coisas que “comprou com tanto sacrifício, ao longo da vida”. O mexer nas roupas, nos serviços de cozinha, nas peças de decoração, trazem-lhe memórias de situações vividas e de pessoas que fizeram parte da sua vida.

Quando somos mais novos, temos pressa em crescer, queremos ter as nossas coisas e a nossa independência, mas quando se chega a uma idade avançada, parece que o tempo passou a correr e que gostaríamos de parar o relógio do tempo para não avançar mais.

Quando vou a determinados lares, o que mais me impressiona, é aquele cheiro característico e o facto de haver tantas pessoas a olhar para o vazio e com um semblante triste ou de apatia. É uma bênção quando chegamos a esta fase da vida sem grandes problemas e rodeados de pessoas que se importam connosco.  

Os pais e os filhos que tenham alguma capacidade financeira, invistam num lar com boas condições ou arranjem alguém que possa tomar conta dos pais na casa deles ou na vossa casa, se tiverem essa possibilidade. Pais e filhos dialoguem no sentido de chegarem a uma solução que possa ser benéfica para todos. 

Quer queiramos quer não, esta é uma fase que todos devemos pensar e planear com muita antecedência.

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Imagens de Bruno Martins e Cristian Newman via Unsplash

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