Segundo o dicionário da língua portuguesa, um herói designa um “indivíduo que se destaca por um ato de extraordinária coragem, valentia, força de carácter, ou outra qualidade considerada notável. Aquele que é admirado por qualquer motivo, constituindo o centro das atenções”. (herói in Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2015).
É um bem valioso termos pessoas na nossa vida que, de forma genuína, olham por nós em momentos particulares da nossa vida, fazem algo em detrimento de si próprias para nos dar mais qualidade de vida, salvam-nos de nós mesmos e ajudam-nos a encontrar uma direção para o nosso caminho. É um luxo que o dinheiro não pode comprar. Sobretudo porque vivemos numa sociedade em que muitos valores parecem esquecidos, em que a confiança é uma qualidade rara e as palavras parecem desprovidas de significado.
Eu tenho os meus heróis, mas eu também posso ser a heroína de alguém. Nem sempre temos noção do impacto das nossas ações e das nossas palavras sobre o outro, do que podemos representar para quem se relaciona connosco e com quem nos cruzámos nalgum momento. Pode ser uma palavra certa no momento certo, um gesto num momento particular da vida, a capacidade de resiliência, uma conquista, ou o facto da nossa presença transmitir força e energia positiva a outros que se sentem contagiados por nós.
Da minha vida fazem parte algumas pessoas que considero serem heróis e heroínas, pelas características que possuem, por aquilo que têm conquistado, pela forma como me têm ajudado e por me terem salvo em vários momentos. Quero destacar algumas delas.
A minha sogra faleceu com 65 anos, na sequência de complicações derivadas do cancro da mama, mas durante o período da sua doença demonstrou uma força e uma resiliência extraordinárias. Sofreu muito, mas nunca deixou transparecer a gravidade da situação. Recordo com carinho o facto de ter sempre comida deliciosa para comermos, independentemente da hora a que chegávamos ou da antecedência com que avisávamos. Tudo o que a Teresa cozinhava era delicioso. Sempre que íamos a casa dos pais do meu marido trazíamos comida feita e por fazer. Estou-lhe muito grata por toda a ajuda que nos deu. Lembro-me muitas vezes da Teresa e sinto a falta dela.
A minha querida mana foi uma professora do 1.º ciclo completamente fora do comum, uma mãe extremosa e uma gigante lutadora contra o cancro da mama que acabou por nos deixar em 2014. Este blogue é uma homenagem à minha mana.
A minha mãe foi, e continua a ser, uma referência na sua área profissional. Teve numerosas conquistas e reconhecimentos profissionais, ao nível nacional e internacional. Subiu a pulso, fez a sua carreira sem favores e sem cunhas e deve o mérito a si própria. Desenvolveu uma capacidade de liderança muito forte. Tem a árdua missão de ajudar a educar os meus sobrinhos, em particular o mais novo, que perderam a sua mãe numa idade muito jovem. Foi por eles, particularmente pelo mais novo, que a minha mãe decidiu que estava na hora de se reformar. Tem ajudado o pai dos meus sobrinhos como se de um filho se tratasse.
Apesar de terem perdido a mãe muito cedo, os meus sobrinhos têm sido sempre excelentes alunos, com a cabeça no lugar e os pés bem assentes na terra, muito esforçados e dedicados aos seus projetos e atividades.
A minha tia Joana tem o dom de ver para além do que os nossos olhos veem, uma capacidade de resiliência muito forte e tem ajudado inúmeras pessoas, a maioria das quais se esquece de retribuir. Tem uma força interior e uma juventude fora do normal e uma energia que nos transmite paz e coragem. Aos 82 anos de idade é uma mulher completamente independente e com a cabeça muito no lugar. Criou as duas filhas e dois netos. Já é bisavó. Aos fins de semana tem as filhas, os netos e os apêndices todos em casa e é ela quem cozinha (não admite que ninguém mexa nas panelas). Pertence à Universidade Sénior onde faz teatro, toca cavaquinho e frequenta aulas.
A minha cadela Beca, uma companheira leal, completamente ligada a mim e sem a qual não me imagino. Faço a minha vida em função dela e tenho-a sempre em consideração em todas as decisões que tomo. Ela é um membro da família.
O meu marido está sempre presente em todos os momentos que eu preciso e tem-me ajudado em todos os meus projetos. Tem uma doença crónica, com a qual tem sabido lidar de uma forma exemplar. Todos os dias pergunta-me se ainda gosto dele.
Todos nós temos momentos de revolta, dificuldade em nos reconhecermos, comportamentos e pensamentos que, apesar de fazerem parte de nós, parece que nada têm que ver connosco e não nos ajudam a ser melhores pessoas nem nos ajudam a seguir em frente com a nossa vida. Nestas alturas, os nossos heróis salvam-nos e trazem-nos de volta para a luz. São também eles que nos ajudam a tomar uma decisão, a darem-nos aquela opinião que tanto precisamos para que se faça luz dentro de nós e, de repente, parece que tudo fica claro.
Também há aqueles heróis que usam o seu conhecimento e as suas posições para tornarem este mundo melhor, mais seguro e que fazem a diferença de uma forma que desconhecemos, muitas vezes à custa de sacrifício pessoal.
Depois, há os heróis invisíveis, que não vemos, mas estão ao nosso lado, a tomar conta de nós.
Olhe por uns instantes para a sua vida e faça uma lista de quem foram e são os seus heróis.
Todos estes heróis e heroínas são pessoas reais, não são personagens de banda desenhada nem de nenhum filme. Os seus superpoderes são as suas características positivas e distintas, o facto de se manterem fiéis a si próprios, de se assumirem diferentes, não terem medo de remar contra a maré, serem pessoas de confiança e de palavra.
Os nossos heróis dão-nos paz. Precisamos muito de ter paz dentro de nós. É um grande desafio nos dias de hoje conseguirmos ter um sentimento de paz, tendo em conta todo o ruído que existe à nossa volta e a velocidade a que somos obrigados a andar.
Olhe por uns instantes para a sua vida e faça uma lista de quem foram e são os seus heróis. Pode ser que se recorde de alguém que já partiu, com quem perdeu o contacto, com quem se deixou de relacionar (e não sabe muito bem porquê) ou até pode ser alguém que está sempre presente para si (mas toma essa pessoa por garantida). Tenha um gesto de carinho com, pelo menos, uma das pessoas que identificou.



Imagem de Esteban Lopez via Unsplash
